quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

UMA ALMA PERDIDA

Ter o corpo colhido pela carreta carregada de toras de madeira, e sentir suas carnes, e seus ossos serem esmigalhados pelo metal do veículo eram dos problemas os menores que João Antônio vivia naquele momento. Sua saga aterrorizante começara durante a discussão com sua esposa. Enfurecido resolveu sair de casa e ir ao boteco tomar umas de cana para afogar suas mágoas. Seu primeiro erro foi desistir desta idéia, pois se talvez estivesse embriagado nada tivesse lhe ocorrido, pois de todos os santos o mais poderoso é Santo Onofre, pois jamais vi gente de sorte como os “bebuns”. Só mesmo o auxilio de um Santo poderia explicar certas feitas, e, inclusive o próprio João Antônio sabia disto. No entanto, na metade do caminho ele resolveu voltar, e pedir perdão. Logo ele que jamais fizera isto. Quando atravessou a rodovia, foi então atropelado pela carreta.
A dor que sentiu foi rápida. Viu pouca coisa, pois logo seus pedaços encheram o radiador, e outras partes do caminhão que freou bruscamente, deixando o asfalto com a névoa dos pneus sendo queimados pela ação dos freios. Um único grito foi o que se ouviu de João. Nada mais. Quando finalmente conseguiu para o caminhão, seu motorista desceu num misto de pavor, e de ódio ao homem que se atravessara em sua frente. – Louco!Louco! Louco! Era a única palavra que vinha de sua boca.
Não demorou a uma multidão se aglomerava. Algumas mulheres, de estômagos mais sensíveis, regurgitavam seu lanche da tarde, e até mesmo seu almoço. Uma mãe correu a tapar o olho de seu menino que estava com os olhos vidrados no corpo desfigurado, e do sangue que corria pelas bordas da rodovia. Sentindo-se estranho, um ser se aproximou para ver o que acontecia. Era ninguém menos que o próprio defunto, que só percebeu o fato após dezenas de tentativas de conversar com alguém, sem ter de volta alguma resposta. Seu maior choque se deu ao ver seu próprio rosto caído para baixo do barranco. As feições da morte daquela cabeça desprendida do restante do corpo era algo de mórbido, que o recente espírito tentava em vão segurá-la. João Antônio não passava de partículas no ar. Sua presença física encontrava-se inerte. Gritou com uma dor tão intensa, que não duvido que almas mais sensíveis, tivessem escutado seu lamento.
Mas como disse no princípio, este de seus problemas era o menor de todos. Antes mesmo que o carro negro da funerária chegasse para carregar sua carga física, seu espírito foi envolto por figuras humanóides, que não passavam de sombras. Ele sentiu pela primeira vez lhe tocarem. Eram as sombras que puxavam seu plano espiritual para dentro de um túnel negro que se abria a sua frente. Ele pressentia que não era coisa boa o que se apresentava, mas não consegui resistir ao seqüestro, e logo ele estava dentro de um cubo completamente negro. Não via nada, e apenas caminha em direção ao ermo. Ao modo que avançava o calor se tornava mais intenso, e o caminho mais estreito. João Antônio sentia-se como um claustrofóbico preso em um elevador.
Ele andou muito, e só não desmaiou, pois já não era mais humano. Se ainda estivesse vivo jamais suportaria tal caloria que tinha naquele lugar, ou conseguiria respirar com o fedor que dominava o ambiente negro, e sem destino. Tinha um odor característico. Mas ele não conseguia lembrar. Aliás, não conseguia pensar em mais nada que não fosse sair daquele lugar. Então, quando ele menos esperava o cubo se desfez, e ele estava num salão amplo e circular. Ele estava planando sobre uma ilhota de terra envolta por um rio de lava vulcânica, abastecido pelas dezenas de cachoeiras alaranjadas e ferventes que o circundavam. De uma destas quedas formou-se a imagem de um rosto esguio e de olhos voltados para baixo. Eram olhos finos e diabólicos. Bem, isto é o mínimo que se pode dizer do demônio. Era o próprio que fitava aquela alma recente. – Sua alma me pertence. Disse a figura de fogo. – Você deve ter se enganado, eu não devia estar aqui. Retrucou João Antônio. – É o que todos dizem. Rebateu o demônio. João Antônio parou, e não falou mais nada. Esperava por uma interferência divina, ou talvez por uma palavra que convencesse o demônio a libertá-lo.
De fato não era para João Antônio ter ido para no inferno, mas uma vez estando lá era praticamente impossível de sair. Ele continuava calado, e começava a entender o tamanho de seus problemas. O caixão em que repousava seu corpo físico era sem dúvida muito mais confortável que o lugar onde sua alma começava a sofrer com os castigos da besta.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

PESCARIA MALDITA

Uma camionete e dois fuscas. Dentro dez pinguços disfarçados de pescadores, um adolescente, e um outro sóbrio, graças á religião que não permitia o uso da cachaça. Eu era o adolescente, e me sentia numa grande aventura dentro de um dos fuscas dividindo espaço com meu pai, dois amigos, e toda a tralha de pesca, redes, tarrafas, caniços... Ia como as sardinhas em suas embalagens, apertado.
Mesmo assim era um dia diferente. Pela primeira vez me aventurava numa pescaria noturna, embora a rejeição de minha mãe, muito mais por ser sexta-feira santa, do que pela companhia daqueles homens embriagados. Ela estava certa, mas só fui descobrir depois do fim daquela madrugada, pois enquanto os carros velhos serpenteavam a estrada de chão sinuosa e poeirenta, para mim tudo era motivo de festa.
Chegamos pelas cinco da tarde no rio. Não era grande, mas tinha água agitada, que propiciava vários estrondos ao se chocar com as pedras em seu leito. Para chegar até ele a estrada até que era boa, mas a entrada ficava escondida pelos capins, um pouco antes da ponte que cruzava sobre o rio. Fincamos acampamento a direita dela, num banco de areia. Na verdade não auxiliei a montagem das barracas, pois logo enfiei um caniço na mão, e fui pegar lambari. “Animais muito burros”, pensava eu vendo-os cair às dezenas em meu anzol.
De repente o tempo mudou, e de trás do cerro surgiram nuvens anunciando chuva. Postas as redes e as linhas, nos resguardamos nas barracas, pois não demorou muito para despencar um caldo, anunciado por raios e trovões. Sem ter o que fazer, os homens continuaram tomando cachaça, vinho, cerveja, e o que mais levasse álcool na fórmula... Apenas eu e o meu amigo crente evitávamos as bebidas, dividindo a única garrafa de coca-cola, que logo chegou ao fim nos copos de samba.
A noite caiu densa e coberta. Chovia muito. Já começava a dar razão para minha mãe. Ficar isolado na barraca e naquele lugar ao ermo tirava o brilho da aventura. Não passava uma viva alma, o lugar era distante, e só o cantarolar bêbado e sôfrego podia-se ouvir. Iluminação só das lanternas, e dum único lampião, pois além de ser noite, tempo fechado e chuvoso, estávamos rodeados de árvores silvestres, que tinham seu verde cortado pelo concreto da ponte. Naquela noite só suas sombras nos rodeavam. Por isso quando surgiu o ronco de um motor, de um barulho agudo e alto, chamou a atenção de todos. Parecia ser de uma moto, pois me lembro de olhar pela fresta da barraca e ver o enorme farol solitário estacionar sobre a ponte e nos mirar. Fosse quem estivesse lá, nos observava. Não tinha boa sensação.
A moto partiu, e ouvi seu som se aproximar, como se entrasse no acesso para o acampamento. Aumentava meu desconforto. A essa altura restava somente eu na barraca, e quando o motor parou novamente, levou poucos segundos para surgir das sombras o corpo de um homem alto, esguio, vestido com roupas negras, e um estranho chapéu que não permitia eu ver seu rosto além do seu nariz pontudo, e seus olhos fundos e fixos. Gesticulou bastante enquanto conversava. Ficou conversando uns dez minutos e partiu acenando com um sorriso malicioso. Ouvi a moto dar partida e arrancar em alta velocidade, e logo o silêncio cair sobre o lugar novamente. Tive arrepios mais uma vez.
Não estou aqui emitir conclusões, e sim compartilhar o fato, pois eu mesmo que vivenciei a tudo o que aconteceu, ainda não sei o que pensar. Começou com uma discussão pouco depois da partida do estranho homem. Não sei como e porque começou, mas uma grande peleia se iniciou à beira do rio. Era faca, facão, pedra e pau para todos os lados... Do resultado final, sete almas mortas a facas e pauladas, e três feridos com gravidade. Meu pai só se salvou cinco meses depois de sair da UTI com uma perna a menos.
Eu e o crente fomos poupados, não pela bondade deles, mas sim pela rapidez do crente em me retirar do meio da briga, quando um facão quase decepou meu braço. Ficamos escondidos numa moita até os gritos acabarem. Meu corpo tremia de medo, e o choro não conseguia conter, e ainda hoje sou capaz de sentir o odor daquela noite, do sangue dos mortos, e do fedor de enxofre que sinceramente não sei donde vinha.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O VENDEDOR DE PICOLÉS

“Gostoso! Saboroso! Delicioso! Cinco picolés por apenas Um Real...” Estas palavras agudas e finas saídas dum alto-falante antigo sempre vinham acompanhadas duma música irritante. Como aquelas dos filmes quando aparece um circo. O carro passava em ponto morto, devagar, esperando pela molecada que como se hipnotizados por aqueles sons atacavam nossas moedinhas e voltavam para dentro de casa ostentando sua aquisição. Era sempre assim, bastava o sol começar a esquentar mais os dias, e a cena repetia-se rotineiramente, de segunda a segunda...

Tudo aquilo me deixava nervosa. Não gostava daquela voz. Daquela música, que deixava no ar um clima de suspense. A Vila era grande, e assim demorava para que o sons se perdessem de meus ouvidos. Ás vezes de tarde, ás vezes pela manhã. Um verão após outro, sempre vinha ele cativando nossos meninos e meninas em volta daquele carro e seus picolés. Até mesmo meu pequeno Joãozinho não resistia, por mais que eu o reprimisse.

Então numa quarta-feira, quando ouvi aquela música zanzando de novo pela vila uma idéia estalou em minha mente. Confesso que o sentimento da dúvida fez-me recuar e avançar várias vezes. Quando percebi que o som estava próximo, na minha rua, catei uma nota de Um Real, e fui para frente de casa. Era de tarde, Joãozinho estava na escola, e lhe faria uma grande surpresa, quando chegasse estaria esperando por ele cinco picolés.

– Boa tarde! Moço pode me ver um pacotinho de picolés.
– Pois não minha senhora. A senhora vai querer qual? Os de uva? Laranja? Abacaxi? Ou quer o pacotinho sortido?
– Pode ser o sortido, mesmo.
– É Um Real (Como se fosse necessário ele me dizer. Não bastava o anúncio no alto-falante). Está aqui. Muito Obrigado.

O Moço até pareceu simpático. Mas minha opinião estava formada. Antes que manobrasse o carro, puxei assunto.

– Que calor, né moço?
– É verdade.
– O moço deve vender bastante em dias como hoje?
– Dá pro gasto. Enquanto a conversa se estendia o resultado não podia ser outro. Logo a gurizada da rua fazia a volta no carro com suas notinhas ou moedas, atraídas pela música que não cessara em nenhum instante. Nesta hora resolvi mostrar minha cordialidade. – O moço quer um copo de água gelada?
– Se a senhora puder fazer esta gentileza. O calor ta danado mesmo.

Virei ás costas e fui dentro de casa pegar o copo com a água. Ele entornou num gole só. Estava como muita sede. – Muito Obrigado. A senhora é muito gentil. Que Deus lhe pague. Naquela hora um soluço subiu-me a garganta, mas estava feito e não podia fazer mais nada por ele.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

DOIS FUROS NO PESCOÇO

A penumbra cobria a rua, que de nome chama-se Garibaldi. As parcas luminárias não davam conta de clarear as paredes velhas, e as portas escancaradas dos prédios que ali existiam. Nas calçadas esburacadas poucos se atreviam á circular àquelas horas, a não ser os que habitualmente o faziam. Mendigos e maltrapilhos acostumados ao copo de martelinho barato servidos nos botecos dali. Nas sombras voluptuosas curvas femininas se insinuavam aos automóveis, em busca de cliente. Outras nem tanto, contentavam-se com as esmolas que os mendigos conseguiam.

Naquele vai-e-vem Kelly demonstrava cansaço depois de um dia corrido, e de boa parte de seu dinheiro ter ir parado na mão do cafetão. Suas mãos displicentes se esforçavam para escorar-se na parede de tijolos a mostra. Num Cantinho do beco, Maria Boca-de-seda ganhava mais “dez pila” fazendo o serviço que lhe trouxera a fama e o apelido. – Simbora, Maria. Não perde muito tempo, que ta na hora de irmos pra casa. Gritava Kelly, que dividia um apartamento imundo com a veterana.

Mas antes de Maria Completar seu serviço, um farol brilhante ofuscou a visão de Kelly. Viu o rosto de um homem escondido atrás do “insufilm”. Ele não falou nada, apenas fez um sinal com o dedo, dizendo “venha”. Ela nem pensou em relutar, o carro era de bacana, e quem sabe... Poderia prestar mais um serviço. Quando Maria saiu do beco, não encontrou sua amiga, que sumira da calçada. “Aquela diabinha, arrumou mais um cliente. Há seu eu ainda tivesse meu corpinho, ela não tinha chance”. Falou a meretriz.

Embora ainda tivesse beleza, Kelly jamais estivera com um cliente tão “fino”. Nunca tinha entrado num carro com estofado de couro. No máximo dentro de carros populares com homens, velhos, gordos e feios que choravam em pagar-lhe cinqüenta reais. Aquele era diferente de todos. Jovem, pouco mais de trinta, rosto enigmático, e um pão de macho, como a própria Kelly pensava. Sair com um homem daqueles, e ainda ser paga, para ela era uma glória. No caminho aproveitando o silêncio de seu companheiro, pensava nas peripécias que faria na cama. Tinha de cativá-lo.

Andaram muito tempo. Foram parar num bairro distanciado, com poucas casas, na verdade, algumas mansões, e alguns velhos casarões como parecia ser o domicílio do homem. Eles desceram do carro, e entraram na casa. Era antiga, com vários detalhes em madeira. Sem falar uma palavra o homem levou-a até o quarto, e jogou-a numa cama luxuosa, mas que parecia ter sido comprada no antiquário. Mas este tipo de detalhes ela não queria perceber.

O homem deitou-se na cama, e guardou-se nas sombras. Não havia nenhuma luz acesa a não ser a do próprio luar que rompia o quarto por uma enorme janela. Ela não titubeou, e mesmo sem música iniciou um sensual “striptease”. A cada peça de roupa retirada seu corpo se mostrava livre, e para surpresa ainda em forma, apesar de sua profissão. Seus seios ainda rijos, seus pêlos muito bem depilados, e um par de coxas grossas e delineadas rebolavam entusiasmadamente. De frente, de costas com seu bumbum ainda firme. Não tinha limites para seus movimentos, tampouco para as posições que praticou com aquele homem comum. Fazia tempo que não transava por prazer. Naquela noite o fez. Depois de anos voltou a sentir um orgasmo, e suas pernas tremerem. Ele também estava satisfeito. Ela percebia seu rosto agradecido. O sexo se repetiu por algumas vezes até se esgotarem suas forças. “Que homem é este, que faz puta cansar.” Pensava um pouco antes de cair no sono.

Acordou com o sol queimando-lhe a face, e cegando sua visão. Por instinto achou um canto que o sol penetrava e se escondeu. Nas sombras, seu corpo não ardia. Primeiro fez por se tranqüilizar. Até perceber que estava nua. Nenhuma roupa, e apenas um saco de couro jogado perto de seu corpo. Caiu em desespero, mas acalmou-se novamente. O lugar era deserto. Não sabia onde estava. Com uma vara improvisada puxou o saco, abri-o e para sua surpresa encontrou um maço de notas de cem. Sorriu. Voltou sentir ardência em seu corpo. Precisamente seu pescoço, ardia, parecia queimar. Passou a mão e sentiu algo diferente. Buscou pelo reflexo num pedaço velho de vidro, e pode ver um fio de sangue e dois buracos em seu pescoço.

O sol estava se aproximando. Buscou por mais sombras, e alguma roupa para vestir seu corpo nu.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

As meninas da rua Garibaldi

Num destes dias, que por mania perambulando como o vento, sem rumo sem destino, fui parar na Garibaldi. Rua distinta deste Porto Alegre, que naquele ponto por vezes torna-se triste, deixando lágrimas escorrerem do céu. Estático como um poste, vi o sol raiar, e partir. A noite abraçar a rua, sem seu movimento cessar.

O trecho não muito longo dá as boas vindas há muitos que chegam, e adeus aos que partem. Deslizando da estação rodoviária via-a até seu encontro com a Farrapos. Lugar agitado, de movimento de carros indo e vindo, e gente na calçada buscando algum lugar.

Em meio a esta cena urbana, pouca coisa se muda de outras ruas, de outros lugares. No entanto suas construções judiadas pelo tempo, seu asfalto coberto pelo lixo do abandono, e uma concentração de gente que mostra em seus rostos maltratados as amarguras duma vida castigada, e sustentada pelo lixo dos ricos, ou pelas esmolas dos corações solidários. Naquele pequeno espaço eles se multiplicam, maltrapilhos, farrapos, como se fossem um outdoor mostrando aos carros que por ali andam que em cada cidade, mais de um mundo existe, que duas realidades tão diferentes são possíveis, em um mundo que se diz civilizado. Se funciona não sei, pois pela velocidade dos automóveis, acho difícil que percebam. Eu mesmo só percebi assim, parado como um poste.

No entanto nem mesmo os prédios depreciados e pobres, os mendigos chamaram-me tanta atenção quanto àquelas pobres meninas. Do raiar do sol ao anoitecer, como robôs automatizados trabalham incessantemente, ora aguardando por clientes escoradas na frieza dos tijolos, ora dentro de seus covis velhos e empoeirados, satisfazendo desejos dos mais indiferentes indivíduos.

Não agüentei ver seus olhos tristes, e corpo desgastado, e parei de fingir-me de poste, e sai a caminhar buscando uma paisagem mais feliz...

terça-feira, 31 de julho de 2007

HORROR SILENCIOSO

Era uma quinta-feira. Dum mês e dia, que não se faz necessário falar. Saía do trabalho pela volta das seis quando o ataque se deu. Uma aguda dor no peito, e senti bambear as pernas tendo o chão como ultimo obstáculo. Foi uma queda dolorida.

A rua naquela hora estava movimentava, com intensa aglomeração de pessoas. Não demorou, para que um extenso círculo se criasse em minha volta. Tinham olhos curiosos para saber o que acontecia com aquele homem, forte, alto e aparentemente saudável. A sensação era terrível não sentia um único tecido de meu corpo que fosse, no entanto meus olhos, inertes, assistiam a tudo o que acontecia. Um ou outro tentando me reanimar, e a correria, o som ausente de suas bocas abertas, seus gestos. A chegada da ambulância, a maca me conduzindo, via tudo, era a única coisa que me restava nada mais.

Dentro da viatura tentava inutilmente abrir minha boca, falar que estava vivo. Que ainda via o mundo a minha volta. Em vão, ficava só a angustia da voz ausente e a intensa vontade de gritar que ainda havia vida em meu corpo. Se dele algum movimento fosse possível talvez se avistasse lágrimas escorrendo pela minha face.

Sem poder me mover, assistia a correria dos médicos pelo corredor do hospital, suas paredes brancas, e rostos angustiados sobre meu corpo, como me dizendo que não mais havia volta. Entramos numa sala, me jogaram sobre a cama, e depois de quatro tentativas de reanimação sumiram por algum tempo. Quando retornaram, traziam junto minha esposa, mulher que por mais de vinte anos, a cada dia aprendia a lhe amar ainda mais. Companheira, amiga, era meu porto seguro. Sem qualquer possibilidade de lhe falar, naquela hora supliquei pela dádiva de poder gritar, e não ver seus olhos se turvarem pelo vermelho da dor, e as lágrimas tomarem seu rosto meigo. O médico tentou consola-la. Senti ciúme, e raiva pela inércia que me tomava. Antes de sair ele fez um sinal negativo, me cobriram com um tecido, que só foi retirado com a chegada de um homem, de rosto tétrico, que aparentava felicidade com a situação.

Fui posto num caixão. Sim, para todos, eu havia morrido. Não sabia que ainda me restava uma fina ligação com a vida. Eu a via, mas não podia tocá-la, senti-la. Sofria o maior horror, silencioso e cruel. Novamente, a dor me corroia, e suplicava por lágrimas que escorressem de minha face, e avisasse que ainda restava um solstício de vida. Caiu a noite, e me levaram a capela, homem devoto e fiel o padre, suponho, fizera questão de velar meu corpo na igreja. Os amigos não tardaram a chegar, eram muitos, e em seus rostos demonstravam sofrimento pela perda. Até os parentes mais distantes se fizeram presente. Muitos havia anos que não os via.

No entanto, se pudesse ter atendido apenas um desejo, seria não ver os rostos das crianças. Pedi para morrer definitivamente antes que eles ali chegassem, ou torcia para que minha mulher não os levasse até lá. Tarefa difícil para quem sempre dedicou muito carinho a eles. Quando se aproximaram de meu corpo, suas faces exibiam um choro incontido, e por instantes cheguei a pensar ter ouvido o som de suas vozes. Em toda a minha vida, e naquela fatídica quase morte foi o momento mais doloroso de todos que já pássara, O mais velho tentando se agarrar ao corpo para que dali eu não partisse, a caçula de hábito retraído apenas deixava escorrer a lágrima incessante. Meus pensamentos e minha mente faziam forças tentando a derradeira chance de mostrar-lhes que ainda restava vida. Minha cabeça doía, meu coração calado, chorava profundo.

Amanheceu, e puseram o tampo do caixão. Restrita minha visão observava pelo pequeno encaixe de vidro. Levou uns trinta minutos e vi a claridade sendo obstruída. Não tinha dúvidas, estavam me enterrando. Tentei gritar pela ultima vez, até que um tampo de cimento me jogara ao breu. Perguntava-me até quando perduraria aquela consciência angustiante.

Não sei por quanto tempo, horas, ou dias se passaram naquele estado. Para acalmar-me puxava minhas memórias, os momentos felizes, e as conquistas dos meus trinta e poucos anos. Durou até o momento que senti uma dormência em meus braços, quando puxei o ar rarefeito, e senti meus pulmões vivos e ofegantes. No silêncio do túmulo só as batidas do meu coração podiam ser ouvidas. Meus gritos num primeiro ato desesperado não sairiam de dentro da caixa de carvalho que estava embalado. Soquei incansavelmente tentando vencer a madeira. A cada minuto o ar se extinguia, tossia muito. Minhas mãos doíam, mas não desistiria até sair dali e contar aos que amava que estava vivo. O sangue dos cortes provocados pelas felpas e a falta de força me dominavam junto com o ar que se esvaía. Minha visão, nítida até ali, foi turvando, os sons sumindo, meu corpo estava cansado por uma batalha impossível. Demorou pouco para que só o negro silêncio, e as trevas da morte me sugassem definitivamente.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Lingerie vermelha, e quatro notas de cinquenta

Ribamar estava no auge do prazer. Naquela tarde todos seus desejos se realizavam. Estava sendo amado, querido. Suas vontades mais secretas eram saciadas pela estonteante dona daquela lingerie. Vermelha, quente como a paixão, ardente qual o fogo.

Aninha era moça. Seu corpo exalava o mais puro desejo. Cabelos longos e louros, silueta bem desenhada, e mãos carinhosas. Sem dúvida uma pessoa especial. Parecia adivinhar as vontades do velho Ribamar. As rugas do rosto, e os olhos fundos denunciavam anos de esquecimento por qual passaram o pobre homem.

Mas naquela doce tarde, ele sentia novamente o arder de seu sangue nas veias. Vivia numa outra dimensão, a que não existiam os problemas e as amarguras de anos vividos. Tudo podia ser esquecido dentro daquelas quatro paredes.

Vendo o brilho nos olhos do velho, Aninha sentia-se feliz. Um sorriso é tão raro, que aquele até chegara a lhe cativar. E assim ela prosseguia, dando ao homem o que ele sempre buscara. Um instante de luxuria, de pecado, para após se redimir com alegria. Afinal, há pecado no prazer? Se assim fosse queriam pecar, e pecar...

Foram minutos, horas talvez, enfim não se podia contar o tempo. Os corpos ardentes se amaram de todas as formas possíveis, até Ribamar sucumbir ao gozo final, ao auge de um prazer que jamais tivera em toda sua vida. Nem mesmo com Graça, seu primeiro grande amor. Como um Rei descansou inerte sobre o ventre da mulher, descansando seu corpo saciado pelo desejo.

Ficou por um tempo daquela maneira. Até que o sono por fim o venceu, um sono feliz, que foi interrompido por um leve toque. Era Aninha, já reposta e ornada pela lingerie vermelha. Ribamar olha-a com agradecimento, ergue-se, veste suas roupas, vai até a porta, e num impulso beija-a com fervor. É a despedida final. Um agradecimento. Abre a porta. Antes de irromper a rua, põe sobre uma penteadeira quatro notas de cinqüenta, e vai embora feliz...

sexta-feira, 22 de junho de 2007