quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O Proprietário. [parte 1]


Ademar Murtosa não era como destes policiais que aparecem nas telas de cinema. Não era nem um pouco galã, e a prova cabal era sua volumosa barriga, fruto do malte da cerveja, bebida que apreciava diariamente. Não se poderia chamá-lo de careca, mas a calvície se aproximava com certa rapidez. Nos olhos carregava as olheiras dos plantões, e das noitadas nos subúrbios, onde conhecia os lugares mais quentes da cidade. Outra grande diferença estava em sua condução. Ao invés de carrões esportivos dos “tiras” das telonas, chegava à delegacia em seu Monza oitenta e oito. Em seus mais de vinte anos de policia civil, onde passou de inspetor a delegado, jamais vira tal brutalidade, e olha que naquela cidade, e nas jurisdições muitos crimes horrendos aconteciam rotineiramente, mas nada se comparava àquilo. Com sua saúde ainda frágil, do pouco tempo que regressara de uma hospitalização, não segurou a ânsia e o vômito que empestearam ainda mais o ambiente, já tenebroso.


O apartamento da vítima era pequeno, um quarto apenas. Era onde se encontrava o corpo do homem. Os lençóis estavam encharcados de sangue. Muitos respingos inclusive nas paredes e no teto. Seu abdômen estava rasgado na altura do coração. Refeito da coragem, o delegado Murtosa aproximou-se, e logo constatou que algo faltava ao morto. O coração. Ele tivera seu coração arrancado. – Procurem pelo apartamento. Ordenou o delegado aos seus subordinados. Ficou sozinho analisando a cena do crime, principalmente o fato mais estranho entre todos. A própria vítima segurava em sua mão uma adaga de fio cortante, e completamente ensangüentada. Buscou por rastros de sangue, pois isto poderia indicar que houvesse tido algum tipo de luta, e o assassino poderia ter sido ferido por sua vítima. Não encontrou. Os outros policiais também não encontraram mais, nada. O possível assassino tivera seqüestrado o coração do morto, que logo ao remexer em seus documentos, descobriu-se o nome, João Carlos Belo.

A carteira continha boa quantia em dinheiro, cartões de crédito e a sua identidade. Tinha quarenta anos. – Que faz um homem desta idade sozinho, perguntou-se Murtosa. Nada fazia sentido, e isto lhe intrigava. Assalto foi á primeira hipótese a ser descartada. Absolutamente nada havia sido retirado do local. Nisso perguntas começaram a ser rabiscadas numa caderneta. Este era o método por qual Murtosa trabalhava. Perguntava-se a todo instante, pois somente deste jeito conseguia manobrar teorias que melhor se adaptassem a suas perguntas.

Como o assassino entrara no local? Foi á primeira pergunta que se fez. Os policiais só conseguiram invadir o local depois de arrobarem a porta, que estava com todas as travas de seguranças pelo lado de dentro. O apartamento estava no oitavo andar, eliminando assim as janelas. Aliás, o corpo só foi descoberto de pelo menos uns quatro dias da morte, quando o sumiço e o mau cheiro vindo do local, começou irritar os demais condôminos. “Foi suicídio”, balbuciou um dos policiais. Murtosa virou-se rápido. Olhou novamente o corpo, e viu-o de uma forma diferente. De fato sua posição indicava tal possibilidade, até então não cogitada. Refletiu por alguns segundos, e voltou-se ao outro policial, e concomitantemente rabiscou mais uma pergunta em seu caderno, e falou em voz alta, “pode até ser, mas cadê o coração?”

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Chip do orgasmo


O professor Licurgo estava empenhado a terminar seu novo invento. Algo que revolucionaria os relacionamentos. Era a solução perfeita para as mulheres que passavam por uma vida inteira sem sentir o prazer do sexo, e um alivio para homens que já não aguentavam dissimulações e falsos gemidos na hora do “amor”. Foram quase uma década de pesquisa. O trabalho fora encomendado por uma secreta sociedade feminina, cansada do desprezo e do egoísmo machista nos momentos mais íntimos. “Eureka”! Bradou o velho professor, e estava pronto seu invento, o Chip do Orgasmo, o simplesmente PSC-O, como denominava seu projeto.

Licurgo admirava sua invenção, mas logo veio uma necessidade. Não bastava os dados virtuais, e assim gritou pelo nome de Claudete. Era uma moça formosa, que há uns dois anos trabalhava como sua secretária. As más línguas falavam, que a moça fora contratada pelo seu rosto bonito e pelo rebolado das ancas largas, que propriamente por sua inteligência. O professor pôs então o Chip na mulher, e para sua surpresa viu a pele de Claudete corar, e sem demora ela se contorcia como uma cobra, jogando-se nua sobre um sofá no canto direito da sala. A moça gritava, urrava, gemia, proferia palavras tão obscenas, que o professor jamais ousou a falar. Ela ficou por mais de hora naquele extase, até sentir seu corpo desfalecer, saciada de seu desejo a tanto tempo reprimido. “Funciona, mas tem um defeito”. Pensou o professor, que retirou o Chip e voltou ao laboratório.

O Cientista estava admirado pelo resultado, mas uma coisa o incomodava. Era tal o estado de prazer de Claudete que ela esquecera do mundo, inclusive da companhia, afinal vocês não acham que o professor pôs o Chip na secretária, pelo bem da ciência. Ele ficou ensandecido, por todo aquele tempo ele esperava pela oportunidade de “tirar uma casquinha”. No entanto ele não teve muito tempo para corrigir os problemas, pois o laboratório foi invadido por uma dezena de homens mascarados, usando toucas com um brasão secreto. Na verdade pertenciam a uma sociedade masculina, que ao saber dos avanços do professor decidiram acabar com seus estudos, afinal, o PSC-O em larga escala seria os esquecimento dos homens por completo, que perderiam qualquer utilidade, e ficariam relegados ao ostracismo. Temiam que as mulheres tendo a opção de escolher entre o certo e o duvidoso, logo optariam pela primeira opção. Vendo as chamas consumirem o laboratório o professor Licurgo chorava qual criança, pensando nos anos de dedicação, e a oportunidade que perdera com a Claudete.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Mensagem do Futuro


Olá. Sei que poucos acreditarão nas próximas linhas. Mas faço isto por uma dádiva a que me foi feita. E também pela esperança de que os humanos não sejam extintos. Falo dum futuro não muito distante. Duma guerra, talvez a última, pois restam poucos sobreviventes entre nossa espécie. Se no passado nossos cientistas foram céticos ao futuro sombrio que se aproximava, temo que esta mensagem seja ridicularizada, ou desconsiderada pelos homens, mas peço que por mais estranho que sejam os fatos, acreditem, é a cruel realidade. Só com a consciência humana será possível salvar nossa raça, seus filhos, seus netos... Vocês precisam passar adiante esta mensagem, e iniciar a paz real e concreta, a paz com a mãe terra, pois seus outros filhos já cochichavam a rebelião contra seus irmãos mais ferozes: os homens.

Os primeiros sinais vieram no início do século vinte um. A natureza explodia sua fúria em furacões, tempestades, enchentes... Muita gente começou a morrer. Para muitos religiosos era o prenuncio do apocalipse, para cientistas fenômenos climáticos. Ambos não estavam errados. A natureza, duma forma ou outra tem de se manifestar. De início o clima, agindo como anticorpos numa estrutura de vida doente. Os mais radicais nos comparariam ao câncer, e embora relute com tal comparação, não existem muitas diferenças. Mas enchentes e tornados ainda não eram suficientes para dizimar a doença que afligia a mãe terra, e mesmo ceifadas milhares de vida, o planeta continuava doente.

O pior ainda estava por vir. O vento levava o sussurro da conspiração. E aí, nós – humanos – começamos a viver o grande terror, o qual jamais se pensava ser possível. Sei que parece algo sensacionalista, uma mera ficção, mas pensem um pouco na natureza. Equilíbrio é a palavra mais exata quando nos referirmos a ela. Sempre foi assim, quanto maior o equilíbrio, mais puro o ar a invadir nossos pulmões. Reflitam aí no presente – pois estou no futuro – se há equilíbrio no mundo em que vivem. A sua cidade, o seu país, você... O que vocês estão fazendo pelo equilíbrio? Provavelmente nada. Sei que houveram tentativas, mas esparsas, pois ao contrário não seria necessária, tal mensagem.

Enfim, escrevo quando já sou o ultimo da minha tropa. Mil homens dizimados por macacos amazônicos. Mas poderia ser outro animal. Para que vocês entendam melhor, pensem num formigueiro. Muitas são as ameaças a ele. No entanto há formigas que fazem valer sua força através do tamanho de seu bando, unidas para espantarem qualquer predador. Agora pense seu planeta. Cada raça com sua cadeia alimentar, com um ciclo natural de evolução das espécies. Porém neste planeta, nasceu um predador imbatível, e com tamanha sede de dominação. Sim, os humanos, os maiores predadores da terra, e os responsáveis pela extinção de tantas espécies.

Não sei por qual maneira, mas as espécies um dia se comunicaram entre si. Talvez mais uma artimanha da natureza, acostumada a livrar-se de inquilinos incômodos. E quando os homens menos esperavam, as presas passaram a atacar seu maior inimigo. Nenhum exército foi capaz de vencer as “tropas”, e nem mesmo uma grande aliança entre as nações garantiu a vitória da humanidade. Já era tarde demais. Os animais estavam em cada cidade, em cada aldeia... Talvez tivessem levado anos para confabular tão perfeito ataque. A reação dos homens veio com suas armas e soldados, em número insuficiente para combater tamanho exército que usava suas forças, e suas presas cortantes, matando um a um, sem poupar qualquer vida. A “raiva generalizada” não poupou um continente sequer, e hoje não resta mais nada aos humanos a não ser fugir... E continuar fugindo, pois estamos sendo caçados, aniquilados, exterminados...

Por favor, acreditem. Se vocês não agirem rápido, e mudarem a maneira de verem nosso planeta, seus descendentes serão exterminados. Hoje – no futuro – a terra não é mais dominada por nós, e temo que existam poucos humanos, apenas o suficiente para manter o equilíbrio.

por, Douglas Eralldo

domingo, 21 de dezembro de 2008

Filhos indesejados.


Tem idades que o tempo sob o chuveiro parece necessitar mais atenção. Era nesta fase da vida que Ricardo encontrava-se. Portas trancadas, inspirações em capas de revistas com mulheres desnudadas. No mínimo meia-hora sob a água morna do chuveiro acariciando o próprio corpo até regozijar-se em prazer solitário, despejando pelo ralo a semente da vida, a sua semente.

Adolescentes não atentam para escritos, para ordens ou convenções. Tempos atrás ele até mesmo poder-se-ia martirizar por causa do pecado cometido, mas não em tempos atuais, onde pipocam revistas propagando que o ato inclusive pode ser saudável, desde que com moderação, e o intuito de descobri-se, para assim estar preparado para uma vida a dois, quando esta chegar, se é que já não havia chegado para Ricardo.

Mas tudo isso não vem ao caso, já que o que quero falar-lhes, é entre os absurdo, o grande absurdo, capaz de provar que coisas estranha surgem do nada, embora o nada precise sempre de uma ação nossa, mesmo que mais ingênua e pura como o ato do jovem adolescente jogar pelo ralo do banheiro sua semente vital, seu código, sua herança.

Há um submundo de textura nauseante e odor ainda pior em canos e tubos por onde pessoas jogam o que não lhe mais pertencem, no caso desta narrativa, a semente de Ricardo. Neste submundo proliferam-se bactérias, insetos repugnantes, e túneis que levam ao ninho de animais detestáveis. Sem notar muitas vezes jogas tesouros nestas vias secretas que se leva para sabe-se lá onde. Acreditem meus amigos, desta Lição Ricardo jamais esquecerá, mesmo vivendo num limbo eterno após o regresso de sua criação indesejada.

Ao jovem Ricardo coube apenas o prazer solitário, e o expelir de sua seiva genética pelo box. Terminou seu banho como sempre o fizera sem jamais se perguntar quais seriam os destinos da substância levada pela água morna ao submundo. Mas não o recrimino por tal ignorância, afinal qual adolescente se faria tal pergunta. Os tempos da idade média foram-se há muito. Ricardo era normal.

Então deixamos prá lá o jovem, pois na verdade ele apenas é o epílogo, uma mera formalidade no enredo, já que estou aqui para narrar a outra ponta da história, a parte que sequer Ricardo soube, e mesmo assim foi a parte que lhe causou sua morte, horrenda por sinal.

Voltemos a substância expelida por nosso amigo. Sua seiva vital. É sobre seu destino, sobre seus caminhos no submundo que preciso falar-lhes, e de como seu trajeto levou a morte do rapaz. Já disse um pouco do submundo, de seus túneis apertados, fétidos, escuros e completamente úmidos. Apenas á água o penetra com agilidade e fluidez em suas entranhas. Isto deveras não seria problema, se não fosse ás tantas coisas desperdiçadas que ela carrega pelo caminho que segue.

E foi com a carona da água morna serpenteando pelos canais do submundo que a semente de Ricardo pegou carona. Assim ela se manteve viva, quente, prestes a germinar, bastava apenas encontrar solo fértil.

Entre tantos animais asquerosos como aqueles insetos que sobrevivem até á crises nucleares, os ratos são habitantes numerosos no submundo. Neste caso, uma rata. Grande, de pêlo úmido, acizantado. Era um animal grande, com rabo mais comprido que o corpo, e dentes fortes, acostumados a roer velhas tubulações, donde encontra muitas vezes sua sobrevivência. Esta rata era solo fértil.

Não sei ao certo quantas curvas foram vencidas pelas sementes depositadas pelo jovem no submundo, mas sei muito bem que chegaram logo ao seu destino, ao solo fértil que as esperava.

A procriação entre ratos é de ciclo curto e muito fértil. A grande rata logo despejou sua ninhada pelo submundo como já o fizera dezenas de vezes. No entanto daquela vez era diferente. Nunca dera uma ninhada com tantos ratos e tão feios. Tinham membros frágeis, eram maiores que o normal, e pasmem equilibrava-se sobre duas patas. Suas orelhas eram curtas, seus dentes fortes, e no rosto demasiadamente ralo de pêlos para o padrão de uma cria saudável. Mas o que mais assustara a rata eram os olhos. Não eram olhos de ratos. Pareciam humanos... Sim humanos. Por algum tempo ela tentou cuidar da prole, mas desistiu, sabia que sua prole era defeituosa. Além disso, os dias passavam a lhe trazer riscos, pois sua cria já dava o dobro de seu tamanho. Eram ratos muito estranhos, aqueles.

Com o aparelho de mp3 tocando em som alto, Ricardo não ouvia bater de paras sob o piso de sua casa. Era um barulho nervoso, agitado. Como a corrida de alguém que tem pressa de chegar ao seu destino. Andavam pelos lúgubres corredores do submundo, em busca de uma saída. Procuravam por alguém, por seu pai... Sim ele tinha culpa pelo que eram, pela criatura que se transformaram. Meio ratos, meio homens, e no fim de tudo nenhum dos dois, apenas criaturas monstruosas com a consciência sobre quem eram, e com uma raiva incontida.

Enfim encontraram um cano frágil perante seus dentes poderosos. Buscavam seu destino pelo cheiro. Logo alçaram-se ao térreo, onde tiveram a sorte de ser noite, e as luzes estarem apagadas, afinal, não conheciam a luz do dia, e uma incursão em momento errado poderia significar suas mortes. Maior entre ele liderava o grupo de umas trinta criaturas, no mínimo. Desejavam apenas uma coisa: Vingança pelo que eram.

Da cozinha, seus pés saltitantes tilintavam no piso encerado até um saguão próximo da escadaria que levava aos quartos. Subiram com volúpia e velocidade sem errar o caminho. Logos as criaturas estava de frente a uma porta. A madeira não intimidou sés dentes, que roeram praticamente a metade da porta. A luz tênue revelava o corpo que dormia ouvindo música.

Então o silêncio foi quebrado pelo único grito de dor que Ricardo pode emitir. Seu ultimo e derradeiro sinal de vida. Mas não durou muito, pois a sagacidade com que seus filhos roíam suas carnes. Levaram poucos segundos para seus ossos, e suas vísceras ficarem expostas. Quando seus pais finalmente chegaram em seu socorro nada além de um corpo disforme, uma porta roída, e estranhas pegadas, foram encontradas no quarto do rapaz.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Edgar Alan Poe [Tributo a um mestre]

Poe foi uma dos maiores escritores do gênero do suspense e do terror. Senão o maior. Para brindar a volta à ativa deste blog, abaixo selecionei alguns links das grandes obras do autor, disponiveis para leitura na web. Aproveitem.

O Gato Preto.
Os Crimes da Rua Morgue.
Tu és o homem.
A carta Furtada

O Passageiro Fantasma.


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segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Culto

Os raios do solstício solar batiam na parede cor-de-pêssego. Eram os últimos sinais dum dia igual a qualquer outro. Segunda-feira, dia de culto. Orações e louvores rompendo a rua. Quem por rotina estivesse naquele lugar, naquele dia e horário, veria sempre "os irmãos" saindo da igreja, normalmente conversando sobre o sermão dos pastor, e marcando o próximo encontro. Porém aquele dia havia de ser diferente, e para o espanto dos olhares de um platéia atônita, "Irmão Chico" riscava o ar com sua adaga pontuda ao ermo, deixando apenas um rastro de sangue sobre a calçada empoeirada...

sexta-feira, 6 de junho de 2008

A GELADEIRA



O coletivo corta a paisagem plana guiando-se pela linha negra que seguia reta ao horizonte que por hora se fazia infinito numa das tantas curvas à direita. Dentro dele vidas desconexas, mas que naquele mínimo espaço de tempo ligam-se uma na outra, ou pelos menos a aqueles que prestam atenção aos seus iguais. Era o que fazia, pois não bisbilhotava o alheio, apenas prestava atenção nas pessoas que naquele momento cercavam-me. Cada uma com um rosto diferente, cada uma com sua história, com seu passado... Mas estavam ali, pequenos ensaios de seus cotidianos a mercê do meu olhar, das minhas percepções...

Meus olhos e meus ouvidos teimavam em ir em direção da moça, um banco atrás do meu, mas no corredor paralelo. Não sei se ao acaso ela notou, mas não raro foram as vezes que contorcia meus músculos e membros para olhá-la. Tinha cabelos ruivos, e a silueta do rosto se mostrava amigável e bela. Ia absorta em pensamentos distantes que logo vieram á tona ao som da campainha do celular. Era uma melodia, triste...
– Alô.Eduardo? (...)
– Fale! o que você quer? (...)
– Talvez eu possa. Se você quer conversar, não tem problema (...)
– Eu também ainda gosto de você (...)
– Mas eu precisava sair. Dar um tempo. Mas já estou com a cabeça mais fria. Acho que uma conversa agora pode resolver (...)
– Não! Não! Você sabe disso (...)
– Mas eu sempre fiz tudo por nós dois, e você sabe disso. Eu sempre lutei pelo nosso casamento (...)
– Me espera em casa. As chaves estão no lugar de sempre... Também tem bebida, e janta na geladeira (...)
A – E você?
– Ora o quê! Você ainda me ama? (...)
– Por que tantos desvios para uma resposta? Você ainda me quer?
– Mas eu não estou forçando nada, meu querido, apenas fiz uma pergunta (...)
– Olha Eduardo, se você não sabe a resposta, é melhor nem conversarmos, e deixarmos tudo como esta (...)
– Não me culpe. Não! Não! E Não! Eu não sou Intransigente, Eduardo. Como queria que eu reagisse, ela era minha melhor amiga (...)
– A culpa não foi só dela. Não tente bancar o inocente, você sabe o que fez, e até isso eu estava para relevar, deixar tudo em segredo (...)
– Não! Não vou sair abrindo a boca por aí, mas acho que errei quando cogitei em te perdoar (...)
– É. acho melhor. Aproveita que não estou em casa e leva tuas coisas embora esta noite. Vou ficar na minha mãe quando eu chegar (...)
– Pode levar aquela porcaria... Também, nunca gostei daquele rádio, leva aquele trambolho (...)
A – Não!
– Está bem. Mas deixe-me o com dois lugares.
– Não! Não Eduardo!
– Pô! Eu já disse não, a geladeira é minha (...)
– Não faça isso, ela é minha (...)
– Nãaaoooo! Plaft.

A moça fechou o telefone e acabou com a discussão ali mesmo. Porém vez por outra quando mirava-a percebia sua preocupação, mais pela possibilidade de chegar em casa e não encontrar a geladeira, que pelo fim de seu relacionamento.

domingo, 25 de maio de 2008

Metamorfose - Kafka



Obra singular de Kafka, disponível para donwload em formato PDF. Clique na imagem para fazer o donwload. (1,15 MB)

sábado, 24 de maio de 2008

Aquele Estranho Amigo de Meu Pai



Asdrubal Inocêncio. Por si só, o nome daquele homem que trabalhava com meu pai já era capaz de criar certas cismas. Mas para piorar, sua aparência também não ajudava, e creio em minha ingenuidade que talvez aquele homem jamais tenha chegado perto de uma fêmea. Era um homem rotundo, braços, e barriga larga, e um rosto pipocado, coisas do tempo de catapora mal curada. Aparecia vez por outra lá em casa, quase sempre depois de dar carona ao meu pai, já que sua casa ficava cinco quadras após a nossa. Devia ter uns quarenta anos, e o mais estranho, jamais se casara, embora não fosse difícil imaginar os motivos para sua solteirice. Tinha uma voz embargada e rouca, e fosse qual fosse o dia vestia-se em tons escuros, principalmente roupas negras. Toda vez que ele aparecia por casa, eu sumia, pois o temia como o diabo da cruz.

Era um sábado, quando ele aportou, dando uma passada para cumprimentar meu pai por um bom negócio realizado. Fiquei a espreita, como um detetive em campana. Por algum motivo ele me passava certo mistério, e resolvera logo dar um jeito naquela situação, já que ele ia a nossa casa, mas jamais havíamos ido a casa dele, ou por falta de tempo, ou pela dificuldade em saber exatamente onde ele morava, pois mesmo nas proximidades ele jamais dissera com precisão seu endereço. Sabíamos apenas que ele morava com sua avó, uma velhinha de oitenta anos, essa era mais uma de suas esquisitices, pois jamais conheci um marmanjo que morasse com a avó.

Eu tinha um plano, seguiria ele com minha bicicleta, e finalmente poderia saber onde ele morava. Isto poderia saciar meus medos quanto a ele, pois quem sabe tudo não passasse da imaginação fértil de um adolescente desconfiado com o estranho amigo de seu pai. Por via das dúvidas mantive meu plano, e quando ele deu partida em seu automóvel, esperei por uma distancia segura, e comecei pedalar em perseguição.

As ruas do bairro são bem calçadas e até permitem uma velocidade maior, mas ele não acelerava muito, e acho que o carro não avançava mais que uns vinte por hora. Ao longe via que ele conduzia o volante olhando para os lados como se vigiasse todas as moradias dali. Não cumprimentava ninguém, era como se fosse um estranho, seguindo lentamente. Demorou uns vinte minutos para que a rua começar a encontrar seu fim, e com ela a ultima casa, um sobrado de janelas largas, cercada por um muro de tijolos se reboco. Parecia um lugar abandonado, onde reinavam os capins altos, e arbustos de todos os tipos. Era uma casa grande, e tinha aos fundos um grande quintal, que descobri fazendo a volta em meio a um matagal que se erguia num terreno baldio. Fiz isso para ver o que ele carregava sobre os ombros.

Ele tirara o saco do bagageiro do seu carro. Parecia pesado, pois suas pernas arquearam quando ele forcejou elevando-o às costas. Achei estranho, e sem nenhum senso de perigo, pus-me em persegui-lo. Iria até o fim, para desmascarar aquele homem estranho. Me embrenhei no matagal, arranhando pernas e braços, mas consegui alcançar um local seguro, sobre um pé de amoreira que tive de escalar. Acobertado pelas folhas verdes da planta, tinha a visão completa do quintal. Era o quintal mais estranho que já tinha visto. Era grande, porém nenhuma planta existia no lugar, e sinceramente, não há sentido em quintal sem flores e sem árvores, apenas um louco poderia conservar tal lugar, forrado por um gramado verde e bem aparado, e em um dos seus extremos uma cova parecia aberta.

Confesso com toda a sinceridade que naquele momento minha valentia havia fugido de mim, e minhas pernas tremiam, e por Deus, me perguntava os motivos para cometer tal idiotice. Pensei em fugir e não ver mais nada, e talvez até tivesse sido melhor, mas se o fizesse ele poderia descobrir minha empreitada, e isso sim seria perigoso demais. Vi ele se aproximar da tal cova, e com violência jogar ao chão o saco. Meu sangue gelou, e se tivesse alguém ao meu lado talvez pudesse confirmar minha palidez, pois fui travado pelo medo e pelo pavor. Um braço caíra pra fora, um braço de gente. De gente morta. Tremia, suava, e chorava escondido na amoreira. Pensava donde teria saído aquele corpo, quem seria aquela mulher, sim era uma mulher, pois quando ele ajeitava o corpo inerte um rosto se revelou, era um belo rosto por sinal, que logo fora jogado dentro da cova.

Ele enterrou pá por pá, e depois cobriu o retângulo de terra com fardos de grama. Ajoelhou-se, e creio que rezara. Todo o ritual deve ter levado cerca de uma hora, tempo que fiquei na amoreira e de lá saí apenas quando sua figura sumiu, entrando em casa pela porta dos fundos. Sai em disparada, até minha bicicleta, na qual montei, e saí em velocidade. Se, contei esta história para alguém? Bom era minha grande dúvida, qual seria minha atitude? Poderia falar a meu pai, ligar pra polícia, poderia fazer qualquer uma destas hipóteses, mas não fiz, achei melhor não arriscar, vá que ele descobrisse quem fora o dedo-duro. Achei melhor não mexer com alguém que enterra corpos em seu quintal, e ainda reza por suas almas.

Por Douglas Eralldo

quinta-feira, 22 de maio de 2008



Maicom vivia um terror particular. Não se lembrava de nada, nem ao mesmo de seu nome, e de quem era. Também não fazia a mínima idéia de como foi parar naquele lugar tomado pelas sombras. As copas das árvores altas como prédios não permitiam a entrada da luz, que o tocava em pequenos filetes, e exaltando a névoa que o cobria. Sentia frio, mas corria nu, completamente nu em meio ao bosque que o aprisionava. Sua mente não lhe permitia lembranças, ou a busca do passado, deixando-o num presente aterrorizador, embrenhando o home numa fuga constante.

Estava cansado. A transpiração de seu corpo, e o cansaço que transformava a carne de suas pernas em concreto eram sinais inequívocos que estava preste a sucumbir ao seu perseguidor. Mas quem, ou o quê o perseguia? Ele estava sozinho, se via sozinho, mas mesmo assim corria alucinantemente em busca de salvação. Sentia a morte transpirar em seu cangote, mas não sabia exatamente o quê lhe jogava em fuga desesperada pela sobrevivência. Acuado girava seus olhos em todas as direções, e a cada cinco metros fazia um ângulo de trezentos e sessenta graus buscando observar se a coisa que o atacava estava próxima. Sua respiração ofegava, ele pensava em descansar, mas uma força o mantinha no caminho.

Rodeado pelo silêncio e pela mata ele podia se lembrar apenas do período que recobrara a consciência. Ele já corria feito louco. Isto fora há no mínimo quatro horas. Quando seu cérebro impulsionado pela adrenalina repousava pelo mínimo instante que fora, ele orava, fazia preces para que o fim da floresta chegasse logo, e que encontrasse ajuda. “Meu Deus, onde estou. Juro por tudo que há de mais sagrado que nunca imaginei haver ainda bosque tão vasto como este”, pensava lentamente juntando um ou duas palavras.
Suas pernas emolduravam seu sofrimento, deixando escorrer o sangue, devido aos cortes e arranhões provocados pelos galhos, e espinhos. Tropeçou, escorregando em alto declive, embolando-se com terra e pedras, esfolando-se ainda mais. Além do medo, a dor não era mais suportável, e ele cogitava parar, e ceder à dormência de suas pernas, e parar ali mesmo deixando-se ser engolido fosse o que fosse seu inimigo. O bafo pútrido carregado pelo vento cada vez mais próximo, e ele prestes a tomar uma decisão. Deixar-se morrer, o seguir fugindo ao ermo.

A queda durou alguns minutos, estatelando o homem em areias macias. Ele podia ouvir o som das ondas raivosas de um mar revolto. Decidiu pela vida, e iluminado por uma ostentosa lua continuou sua fuga, deixando rastros sinuosos na areia...

Por Douglas Eralldo

sábado, 17 de maio de 2008

KM 100: ONDE A MORTE ENCONTRA VOCÊ


– Não foi fácil chegar até aqui. Convencer os que não se convenciam, e convencer a mim mesmo que há algo de estranho nesta estrada. Foram quarenta e nove mortes nos últimos sete anos, e apenas agora estamos fazendo algo para frear o ímpeto destas curvas assassinas. As palavras saiam da boca de Felisberto Cunha. De profissão pedreiro, mas por amor, bombeiro voluntário, grupo que ajudara a criar anos antes. Seu sofrimento falava da Rodovia 470 que cortava ao meio a pequena cidade de Vale Grande.
O lugar era bucólico, com personagens muito próprios, onde a valentia e a perseverança de Felisberto sobressaiam. Primeiro teve de vencer a morte de sua esposa e suas duas filhas. A noite ainda ouvia os gritos de Rita, a mais jovem agonizando entre ferragens. Nunca mais dormiu uma noite de sono completo, e por isso seus olhos eram inchados e vermelhos. Voltavam da casa de parentes quando o carro guiado por ele deslizou no asfalto molhado, e sem condição de frear chocou-se violentamente contra o barranco. Apenas ele sobreviveu, e mesmo assim teve de superar dois meses de coma profundo. Muitas vezes praguejou os céus por apenas ele continuar vivo. A dor pela ausência de sua família o atormentava, e por mais de ano seu único consolo era o copo de cachaça.
Felisberto não trabalhava. Sua casa se habitou de ares fúnebres, e poucos tinha coragem de chegar a ela. Apenas o carteiro, que não passava da cerca com a caixa de correspondência, e o Padre iam ao seu encontro. O padre, inclusive, mostrava-se tão perseverante quanto Felisberto, pois várias foram as vezes que saiu corrido pelo amargurado homem. “Que Deus é este, que tira a vida de crianças, de esposas dedicadas? Que Deus é este?” dizia ele afrontando o pároco. Mas algum tempo depois ele recuou, e voltou a ser o homem cordial, e foi aí que começou a criar o grupo de Bombeiros Voluntários. O padre fizera um belo trabalho.
Então sempre quando algo ocorria de errado no lugarejo com pouco mais de dez mil pessoas, e nenhum prédio com mais de três andares, lá estava Felisberto sobre o carro Mercedes ganhou de uma cidade da Europa. E sempre havia trabalho, ora fogo, ora um simples animal em perigo, mas era soar a sirene em seu turno que Felisberto corria para atender com seus companheiros. Porém a alegria da maioria das vezes era abruptamente ceifada pelas tristezas que lhe chegavam. Todas vindas do quilômetro cem das 470, pois os acidentes continuavam a existir, e a levar vida em sua reta de trezentos metros, e em suas cinco curvas existentes nos setecentos metros restantes. Naquele lugar ninguém sobrevivia. Aliás, o único que restara para contar história tinha sido o próprio Felisberto. Fora ele, apenas corpos jaziam de ferros, borracha e vidro.



A fama de estrada da morte correu distâncias, e muita gente resolveu fazer turismo ao palco do horror que afligia os moradores e os viajantes. O trecho do quilômetro cem passou a ser um dos lugares mais visitados da cidade, embora seu visual não fosse, digamos assim, algo bonito para ser visto. Para quem vem do sul, a primeira coisa a ser vista é a placa vistosa, com a escrita estridente: KM 100. Esta substituiu a placa menor que se escondia sob os arbustos. A intenção na verdade era demarcar o local aos visitantes e curiosos, se bem que isto sequer era necessário, pois os estilhaços de pára-brisas, ferros contorcidos, e até rodas amassadas às margens deixavam claro que o lugar se iniciava ali. Não há casas em nenhuma parte do trecho. A reta é a primeira a se insinuar abrindo caminho para a morte, e logo apo com o “s” se inicia o trecho sinuoso. Do lado direito uma valeta leva a um barranco, e mais adiante o campo dá lugar a frondosos pinheiros á beira da estrada. No lado esquerdo, mais barrancos, e um declive acentuado levando a um buraco, onde há água num pequeno córrego ao se iniciar as curvas. O asfalto negro como as sombras por vezes é imaculado por buracos, e ondulações. Muitos protestaram por causa das condições da estrada, mas nenhuma autoridade buscou resolve-los. No entanto, talvez isto também não fosse suficiente, pelo menos é o que começara imaginar Felisberto.
A rodovia, e “o trecho da morte” começaram a se transformar numa obsessão do bombeiro voluntário, que via nas mortes muito mais que acidentes de trânsito. E aí começou sua peregrinação por convencer as demais instâncias da cidade que o Km 100 conduzia as mortes de forma planejada e metódica. No início ninguém deu ouvidos à suas teorias, nem mesmo o padre, que tentava achacar a obsessão de sua ovelha mais arredia. Mas Felisberto se debruçou sobre jornais, e outros documentos, que o auxiliaram a formatar um documento cheio de detalhes que era capaz de assustar aos que o viam. Assim ele começou a conquistar o apoio da prefeitura, dos demais bombeiros, e até da polícia local. O grande objetivo dele era salvar novas vidas, pois sabia que a estrada ira tragar mais almas, e sabia também o lugar, e a provável hora para acontecer.
– Demorei seis meses para elaborar este estudo, o qual hoje conta com a confiança de muitos aqui, presentes. Aos que ainda não tem o conhecimento, lhes peço discrição, pois o que será falado pode fugir da alçada da compreensão humana, porém mostram os números, que talvez haja mais que simples coincidências nas vidas que são levadas pela estrada maldita. Felisberto discursava para uma platéia com umas cinqüenta pessoas. Todas elas estariam envolvidas no planejamento de trabalho para aquela noite.
– Sei que muitos de vocês acreditam que não seja necessária nossa presença. Ou que eu tenha ficado louco, e que muitos também enlouqueceram por concordarem em colocarmos toda a estrutura da cidade num lugar onde não aconteceu nada. Mas tenham certeza, isto acontecerá, pois sempre aconteceu, e nós apenas tivemos tempo para resgatar corpos, jamais vidas. Nos últimos sete anos, dezenas de almas se perderam nesta estrada, quase cem. É nós não podemos fazer nada. Famílias se desfizeram por inteiro, jovens, velhos, homens, mulheres... Mas hoje podemos fazer algo para tentar evitar, e não quero que pensem que sou algum vidente ou coisa do gênero. São os números que afirmam isto, são eles que dizem que a morte chega a cada sete semanas, e primeiramente na primeira sexta-feira de noite sem lua, quando as sombras cobrem a terra, e a estrada naquele trecho. Caso alguém ainda duvide, todo o estudo está aqui, e é por ele que nos basearemos e passaremos a noite, e caso aquelas malditas curvas teimem em querer levar alguém, estaremos lá para salvar estas vidas. Todo o discurso de Felisberto foi baseado nos números e na certeza que a estrada tentaria levar mais alguém naquela noite.
Há sete semanas Severo Malheiros capo desgovernara sua camionete levando-a ao fundo do lago, morrendo afogado. Todas as vidas haviam sido tragadas entre vinte e uma e as vinte e três horas e cinqüenta e nove minutos. Jamais depois da meia-noite. Jamais. Então bombeiros, uma ambulância, e policias partiram para o trecho maldito da estrada. Estava muito escuro, e mesmo que houvesse lua não seria vista, já que nuvens negras traziam trevas, e uma chuva aguda e fria, obrigando a todos usar capas e guarda-chuvas. Apenas os faróis dos carros da caravana cortavam os pingos d’água que caiam, enquanto olhares nervosos buscavam qualquer indício de perigo.
Ao chegarem, todos se puseram nos pontos pré-determinados, sempre buscando cobrir a maior área possível do trecho. Sirenes ligadas, cones redutores de velocidade, entre outros apetrechos foram usados para chamar a atenção dos motoristas que por ventura fossem trafegar na estrada. O carro com Felisberto ficou estacionado num plano pequeno, no início da curva. Com a chuva foram apenas três bombeiros, Felisberto e outros dois.
– Você acredita mesmo nisso? Perguntou Raul.
– Se não acreditasse, não estaria aqui. Respondeu agressivo.
– Não duvido de suas teorias, meu amigo, mas é que especialmente hoje, não acredito que alguém invente de pegar a estrada.
– É, mas há três anos chovia muito mais, e um senhor idoso bateu o carro quando ia a capital visitar seu filho enfermo. E foi também num maldito dia de chuva que esta estrada levou minha família.
– Ah! Lembro-me. Foi um dos primeiros acidentes, não foi? Sim, exatamente foi logo depois da inauguração da estrada nova ligando até Vale Novo. Mas isto faz quantos anos?
– Exatamente sete anos. Sete malditos anos que esta estrada carrega pessoas, e se cobre com o sangue e com a morte.
– Credo! Você até me assusta. Vou tirar uma água do joelho e volto já. Disse Raul.
– Também vou. Disse Ernesto. Provavelmente falariam das loucuras do colega, no lado de fora.

Felisberto ficou absorto em seus devaneios e lembranças cruéis. Enquanto os amigos se afastavam, até uma árvore para urinar ele ligou o velho radio que doara ao caminhão do corpo de bombeiros. O som melancólico de “stairway” do Led Zeppelin soava chiado, mas ele não trocou de estação, perdendo seu olhar em direção ao início da reta. A imagem de Ana sua amada esposa formava-se no horizonte. Viu seu sorriso doce de sempre. As meninas cirandavam a sua volta esvoaçando os vestidos de panos leves. Pareciam felizes, enquanto lágrimas vertiam de olhos clementes. Então ao longe, mesmo com os pingos mais grossos estalando na lata do caminhão, ele percebeu que uma luz vinha pela estrada, cada vez mais forte. Tinha um ronco forte, que rompia a noite, e em velocidade avançava pela reta. Sem acreditar no que via, Felisberto levou as mãos aos olhos, limpando-os para ver se não era miragem o que via. Não era. O caminhão seguia em velocidade em sua direção, e o mais incrível era conduzido por quatro enormes cavalos, dois de cada lado. Sobre ele nada mais que sombras cobertas por um manto negro, cavalgavam como se conduzissem o caminhão par o choque inevitável. Uma grande explosão se ouviu, e o caminhou profanou o carro de bombeiros e a carne Felisberto. Não vivia mais quando percebeu ser agarrado por um daqueles seres estranhos. Seu espírito foi tragado pelas condutoras da morte lavando-o a algum lugar desconhecido. Os cavalos subiam no ar com houvesse ali escadas, carregando pelos pulsos a alma de Felisberto, o mesmo que fora até o lugar para tentar salvar vidas. Desnorteado com a passagem ele ainda teve condições de ouvir a voz distorcida de um deles dizendo “até que enfim o encontramos!”
Depois daquela noite nenhum outro acidente aconteceu naquele trecho, e muitas autoridades ainda se indagavam quando ao corpo do outro motorista, que jamais fora encontrado entre as ferragens. Apenas Raul, ouvira os tropéis dos cavalos, e avistou as sombras que carregaram Felisberto. Mas ninguém lhe daria credibilidade, não dentro daquele hospício.

terça-feira, 13 de maio de 2008

A bergamoteira e o Lobisomem

Corria pelo Pedregal – distrito duma cidade pequenina, que de tão pequena, mal aparecia no mapa – que o Seu Candinho era lobisomem. Sabe como é lugar pequeno, tem sempre seus folclores, neste caso, Seu Candinho era a bola da vez, e assim foi sendo conhecido, o lobisomem do Pedregal. Confesso que não sei como o boato surgiu, ele era amigo de todos, gostava dum trago na venda, mas não a ponto de fazer bagunça como uns e outros, ia na missa, era alguém de certa posição na comunidade. Mas nada disso fazia espantar os boatos, e a criançada nascia ouvindo dizer que Seu Candinho era lobisomem. Só podia ser pelos seus ouvidos peludos, não imaginava outra hipótese, pois em mais nada ele lembrava um homem-lobo, cruel o suficiente para atacar os rebanhos, e assustar os pescadores.

Outra característica do Seu Candinho era o capricho – pelo que ouvia os lobisomens deviam ser muito relaxados – seu sítio era um dos mais bem cuidados pela volta. Por isso seu pomar chamava a atenção. Era farto e diverso. Tinha todo o tipo de fruta. Era maio, e o dourado da bergamoteira instigavam a cobiça da molecada. As árvores repletas de frutos, suculentos, e saborosos. Não tinha como resistir. Nem mesmo os boatos da identidade secreta do velho Candinho nos fazia recuar. Numa tarde destas, passadas, então se encorajamos, e a cerca de arame farpado não foi empecilho para um bando de uns cinco moleques. E como dizia meu falecido avô, “numa reunião onde tiver mais que um guri, nem o diabo chega perto”. Baseado nisso, o Seu Candinho era pouca coisa, para a tentação que vinha das bergamoteiras.

Se espraiou um em cada galho. O chão começou amarelar das cascas caídas ao chão. Não sei como cabia tanta bergamota. Estava tão tranquilo que chegamos esquecer onde estávamos, no pomar do lobisomem. Não preciso relatar a correria que foi quando o Seu Candinho anunciou sua chegada com seu assovio cantado – ele adorava assoviar – no pomar. Quando demos por conta estávamos prá lá do sítio do Seu Josias. Mais rápido que um ráio descemos da bergamoteira, se arranhando pelos espinhos, cruzando o arame farpado, passando por buracos, até estarmos longe da vista do “lobisomem”, e em segurança. Confuso mesmo ficava o Seu Candinho sem saber porque a gurizada tinha tanto medo dele, afinal jamais se importaria pelas bergamotas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

BORDEL DA MORTE

Demorou tempos para os boatos se espalharem. Talvez por isso muitos ossos estejam sob as dunas que cercam o Bordel. Um letreiro com lâmpadas apagadas diz “Night Love”, mas nem sempre o amor era achado, pelos que por ali se aventuraram. Sua dona era conhecida por “Joana Tetuda”, uma senhora velha, que ganhara a vida vendendo o que carregava debaixo da saia. Há anos era ela quem comandava o lugar. Mas não era ela, a responsável pelo terror que se apossava de homens incautos, sedentos pelo jubilo do prazer. Ao contrário, Joana sempre buscou justamente o contrário, em seu íntimo lhe satisfazia prover machos do que estes não encontravam em seus lares. Sentia-se infeliz apenas, pois seu corpo denso e robusto, de pele caída e seus seios quase ao umbigo não atraiam mais ninguém. Outrora o volume de suas mamas eram um atrativo, mas com a idade passaram mesmo a ser um estorvo, um peso a carregar. Ao máximo ganhava cinco, ou dez pila por um “boquete”. Nisso ela ainda era mestra, e acreditem ou não, reunia clientes para tal. Porém não era mais o suficiente, e nada mais lhe restou que ganhar dinheiro com corpo de outras “meninas”.
Ela reunia em torno de si mulheres bonitas. Sabia que era o melhor atrativo. Um par de coxas bem torneado, um rosto bonito, bundas voluptuosas, e mulheres ardentes. Para ela este era o melhor ingrediente a oferecer, e por isso era exigente com as que se apresentavam. Outra coisa de costume era possuir em seu grupo, garotas novatas, mas sempre com mais de dezoito, pois Joana tinha medo da lei. Além disso, as novatas atraiam clientes desejosos por desfrutar pela primeira vez de uma mulher da vida. Pagavam caro por isso, e assim Joana levava a vida, não de riqueza, mas com uma considerável poupança no banco. O suficiente pra não se preocupar com os tempos de vacas magras, dizia. Porém foi justamente ao surgir uma destas novatas que coisas estranhas começaram a acontecer.
A – Dona Joana! Disse uma voz rouca e penitente. A cafetina chegou a levar um susto, pois, do nada surgiram as duas figuras. Um homem de cabelos grisalho e ralos, ostentando um cavanhaque tão branco quanto os cabelos, e segura por ele uma mulher de rosto ainda menina, que carregava nos olhos um vazio tão grande quanto a eternidade da morte.
– Cruz credo! Ave Maria. Assim tu me matas de susto homem.
– Não foi minha intenção Dona Joana, a Senhora me perdoe, por favor.
– Então me diga logo o que quer.
– A senhora sabe que minha família é grande, e que a gente está de muda pra São Paulo, mas o dinheiro anda curto, então vim se por acaso a Senhora não precisa de menina nova, pois quem sabe a gente faz negócio.
– E essa menina quem é? Não me parece com idade pra função?
– É Melissa, minha filha do meio. Mas a senhora pode sossegar que ela fez dezoito três meses atrás. Não faria isso, mas o dinheiro...
– Não precisa me repetir, pois esta história, eu conheço há muito tempo. Ela é virgem?
– Olha, isso ela não é mais, mas garanto pra senhora que só um macho buliu nela até hoje.
– Disso não duvido, e lhe garanto que não devo estar errada em saber quem foi. Mas isso não me importa, a casa até que ta precisando de novidade, e ela até que é bem bonitinha. Venha no meu escritório para acertarmos o preço. Judite Venha cá. Leve essa menina até o quarto que está vago, que já passo lá pra conversar com ela. Disse a dona do bordel para uma das quengas.
Sobre a beleza da garota era uma ofensa a palavra bonitinha. Melissa ostentava um rosto de traços finos, coisa rara naquele lugar. É como se ela não pertencesse ao mundo que nasceu. Seus cabelos negros, lisos e sedosos escorriam até a metade das costas, e o verde cintilante dos olhos serviam para aumentar o mistério de seu olhar que na maioria dos momentos era vago e distante. Sua pele era tão macia como os lençóis de seda que Dona Joana tinha em seu quarto, um capricho de puta velha. Seu corpo ainda florescia. Tudo era distribuído, sem nenhuma sobra. Suas coxas eram voluptuosas, mas sem exagero, e seus seios entre o médio e o farto era algo que não se encontrava fácil. Pela idade tenra seus bicos se mostravam altivos e rijos sob um vestido com estampas floridas. Ela entrou em silêncio, e assim seguiu ao quarto que Judite a levara. Na verdade nunca alguém ouviu dela uma só palavra. No máximo gemidos falsos para apressar os mais demorados a saciarem-se em seu corpo. Seu silêncio era inquietante. Dona Joana no início quase a mandou embora, porém seus mistérios acendiam as paixões nos homens da cidade.
Joana tentou conversar com a garota. Em vão. A velha temia que ela não fizesse o serviço, já que passou semanas sem obter qualquer resposta. No entanto no dia de sua inauguração na vida, Melissa, ou simplesmente, Mel, como passaram a lhe conhecer, não decepcionou. Dona Joana sempre soube como fazer render seus investimentos, e do mesmo modo, em sua função, pode-se dizer que tinha tino ao marketing. – Minha filha, hoje é o grande dia. Vai por mim, não precisa ter medo, muitos deles querem apenas uma perna aberta, e como é sua primeira vez, irão tolerar qualquer deslize. Porém tu terás que fazer tudo o que combinamos, dance, rebole, tire o sutiã, mas não se esqueça a calcinha não – isto fazia parte de mais um plano de Dona Joana, que vendera o produto como novo, e por isso estrearia Mel, nos dias que findavam seu ciclo menstrual, por isso a proibição de tirar a calcinha no salão – faça como Judite lhe ensinou que tudo sairá bem...
Não preciso dizer que a cidade esperava por aquela noite. Há tempos não havia estréia no bordel, e os homens estavam ansiosos, e de “burra” cheia, para gastar no leilão. As luzes se apagaram e um círculo se formou ao redor da pista de dança do salão onde uma cadeira solitária repousava. Então uma música mais agitada rompeu o silêncio, e uma jovem mulher saiu de trás da copa. Serpenteava seu corpo ao som da música. Trajava um vestido vermelho, da cor do pecado. Antes mesmo que este descobrisse seu corpo, marmanjos não conseguiam esconder sua excitação ereta, frente a tal beleza. Ela se desfez do vestido, e revelou sua lingerie negra. Rebolava fazendo a volta na roda formada, e por vezes empinava seu bumbum de tamanho simétrico, elevando quase a altura de rostos vorazes em devorá-lo. E antes de as luzes se acenderem, tirou o sutiã, expondo seus seios a uma platéia que aplaudia em reverência. Depois de lances altos, o prefeito por fim arrematou a chance de estrear a novidade.
Desde então, Mel foi á quenga mais procurada no Bordel, e mesmo quando os boatos se espalharam, e a casa passou a ficar vazia, sempre quando surgia algum cliente, e por ela que procuravam: - Onde está a morena misteriosa? Perguntavam. E aí sempre surgia Mel, ostentando suas curvas seminuas. Mas estes eram poucos, pois muitos homens haviam sumido na cidade, pra quase uma centena diziam alguns. As mulheres procuravam por seus maridos sem suspeitar de seus paradeiros, mas os homens do lugar sabiam que muitos destes foram vistos pela ultima vez no Bordel da Joana, porém como quase todos os sumidos faziam parte da sociedade, o mistério dos desaparecimentos não vinha á tona pelo receio dos que sabiam de onde sumiram tantos homens. Era um lugar conservador, e era preferível ocultar o segredo deixando de freqüentar o Bordel da Joana, a ver seus nomes em escândalos familiares.
Então o Bordel de Dona Joana começou a passar por grande crise, e viver apenas de viajantes desavisados. Quase todas as putas a abandonaram, apenas Mel ficou exercendo o metie. Adoentada, a velha Joana quase nem saia de seu quarto, e pra dizer a verdade Mel era quase uma sombra solitária escondida em sombras. Porém o letreiro seguia aceso. Uma armadilha tal qual a teia da aranha na espreita por insetos descuidados. Foi o que chamou a atenção de André, que viajava há mais de três horas para uma reunião que aconteceria na manhã seguinte. “Pode ser uma boa idéia!” Pensou o viajante. Ele estacionou seu automóvel em frente ao local e desceu. Estranhou o som abafado, e quando adentrou no recinto se deparou com um salão escuro e vazio, onde uma música em tom baixo tocava e as luzes coloridas eram a única luminosidade do lugar.
Das sombras um corpo despido surgiu, e nada mais fez que um sinal convidativo. Mel nunca precisou falar, todos atendiam ao seu chamado. “Meus Deu! Que mulher é essa?” pensou em voz alta o homem ao ver Mel, nua e exalando o aroma de prazer. Os gestos dela dispensavam palavras, e ele sabia que era um convite.
Embriagado pela lábia silenciosa daquela mulher de beleza estonteante André a seguiu. Seus olhos avistavam apenas o corpo nu que o levava num caminhar lancinante e provocativo a um pequeno quarto nos fundos do prédio. A cama velha rangia enquanto o homem era tragado para dentro do corpo de Mel. André por hora tinha sensação de se encontrar por inteiro dentro da mulher que fazia sexo com ele da maneira que ele jamais fizera com alguém.
Mel nunca pode entender por quais motivos seus instintos nasciam com a lua cheia. Nestas datas que era aconselhável nenhum homem aparecer no Bordel. Apenas quando a lua se expunha por inteiro. Talvez por isso, como a lua, também os sentimentos de menina-mulher tomavam seu corpo por inteiro, e deste sentimento renascesse a cada quatro semanas, seu ódio pelos homens, pelos machos... Pois eram nestes dias de luar que a imagem de seu pai invadindo seu corpo virgem seu suor fétido e hálito embriagado a faziam lembrar o quão animal pode ser o homem. Nestas noites, seu silêncio, seus gemidos eram trocados pelos gritos de dor, a mesma dor da primeira vez que o homem que a vendeu a Dona Joana lhe fizera sentir, a dor de estar viva, e conviver com tais lembranças... Nestas noites todo homem que se aventurasse em seu corpo pagaria pelos crimes do velho Gregório.
Enquanto André fazia jorrar seu prazer, envolto nas sombras da noite, Mel via apenas o rosto do Velho Gregório. Sentia seu bafo de cachaça barata, e seu corpo produzia o mesmo asco que sentira cada vez que seu pai a violentara. A faca guardada sob o colchão deslizava pelo pescoço inocente, e Mel só percebia então que o morto não era quem ela queria matar, depois do trabalho feito. Muitas vezes ela teve de limpar o sangue, e os vestígios. As dunas eram um bom esconderijo onde jaziam ossos aos quais, André se juntaria logo.
Antes do alvorecer ela retornava ao quarto, esperando que um dia o rosto não se desfigurasse, e ali pudesse enterrar o homem a quem ela aguarda ansiosa um dia poder matar. Mas enquanto este dia não chega não aconselho ninguém chegar pelas bandas do Bordel, “Night Love”. Pelo menos, não em dias de lua cheia.

por, Douglas Eralldo

terça-feira, 29 de abril de 2008



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Fazia certo tempo que minha esposa apresentava tal proposta, e eu seguia relutante. Nuncafui destes que detestam animais, no entanto sempre tive certa cisma com gatos. Até mepediam explicações, um motivo para tal receio. Na verdade não tinha nada, nenhumaresposta, não gostava e pronto.Há um ditado popular que diz “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E foi o que
aconteceu. Sabe como são as mulheres, nenhum ser é tão capaz de artifícios para a conquista
do que desejam. E assim numa bela tarde de sábado, veio ela com um pequenino bichano em
seus braços. Era negro, destas de dar susto em sexta-feira treze. Seus olhos alaranjados
reluziam como fogo e seu pêlo denso se ouriçou todo com a minha presença. Relevei.
O animal foi crescendo, e eu na minha complacência fui tentando me acostumar com a
estranha presença. Confesso que até tentei uma aproximação, um carinho, um afago, mas não
dava, ficava em meu coração a cisma contra o animal. Não era nada pessoal contra o gato que
ali vivia, no ceio de meu lar, era algo maior, contra toda uma raça.
Ao passo que se passavam os meses via aumentar o afeto entre ele, e minha mulher. Roçava
em suas pernas. Ronronava. Chamava sua atenção. Juro que muitas vezes ficava com a
impressão de que cada olhar dela desviado de mim, o gato olhava-me com deboche. A mulher
dizia-me que estava ficando louco.
Mas cada sentimento dentro de nós, assim existe por algum motivo. Numa noite fria, entrada
do inverno voltava de uma viagem demorada, compromissos de trabalho. A única coisa que
pensava eram os carinhos e o corpo sedento de desejo de minha amada esposa. Abri a porta e
não tardei á beija-la e abraça-la. Mantinha dentro de mim o mesmo ímpeto e desejo de
outrora, e sem demora estávamos nus em nosso quarto.
Embriagado pela paixão não pude perceber que uma estranha figura assistia passivo e calado
aquela cena de amor. Mesmo com o ciúme corroendo seu corpo e sua alma ficou ali, no
silêncio até que os dois amantes adormecessem saciados pelo prazer. Meu corpo relaxou, e
jamais imaginei tal perigo. Só dei conta da presença de tal figura ao sentir meu corpo ser
tocado levemente por patas tão suaves quanto veludo. Abri lentamente os olhos e vi ganhar
forma sobre meu peito a figura do gato negro. Seus olhos enraivecidos tinham uma tonalidade
ainda mais forte de alaranjado. Pensei em espantá-lo, mas faltou tempo. Sorrateiro e rápido
como o melhor dos ladrões em segundos estava com a minha jugular ao seu alcance. Suas
garras afiadas deram apenas um talho. Fatal.
Talvez meus sentimentos e minhas reticências com o animal fosse um aviso. Um aviso que não
escutei. O gosto amargo do sangue esvaindo de minha garganta e a visão turva do gato preto,
com seus olhos de fogo foram a ultima coisa que senti e que vi em minha vida.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

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quarta-feira, 23 de abril de 2008

Pesadelos - Contos de Terror - R$ 2,50



Obra: Pesadelos & outros Contos de Terror
Arquivo: PDF
Páginas: 36
Envio: via e-mail após confirmação do pagamento
Autor: Douglas Eralldo
Preço: R$ 2,50
Sinopse: Coletânea com 8 contos de terror, capaz de fazer surgir os piores medos existentes dentro do ser humano. Entre eles estão "O açougueiro", "O vendedor de Picolés"; "O Cachorro dos Kovalski", e "Pesadelos" que dá nome a coletanea.
















terça-feira, 22 de abril de 2008

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segunda-feira, 14 de abril de 2008

CONVERSAS CONFUSAS

– Passa o copo aí.
– De novo?
– Tem alguma coisa contra. Vamos logo, me de mais um gole...
– Vai com calma, Jair. Já é a oitava rodada.
– E qual é o problema? Tô bebendo com o teu dinheiro.
– Hoje não.
– “Que se tá dizendo, seu porquera”.
– Nada.
– Me diz se alguma vez fiquei te devendo.
– Qual delas?
– Seu safado!
– Safado é você!
– É nisso que dá ficar ajudando mal agradecido.
– Quando eu precisei da tua ajuda?
– agora faz pouco caso. Mas quando tava sem emprego...
– Eu sabia que não iria demorar pra ficar jogando na cara. Só não esqueça também das vezes que fui eu quem te ajudou.
– Sabe d’uma coisa, to nem aí pra suas queixas, seu safado!
– Se vai continuar com ofensas é melhor se preparar para as conseqüências.
– O quê? Não me fale de conseqüências, seu frouxo. Nunca teve coragem nesta vida, e não é agora que vai me meter medo.
– Não me obrigue a perder a cabeça...
– Me deixa beber seu filho...
– Você me paga.
– Saia daqui e me deixe beber. O quê tem na mão? O que é isso? Não! Não! Nãooo.......

terça-feira, 1 de abril de 2008

AMALDIÇOADO

Antes das oito e do sol queimar a moleira, as ruas da metrópole se enchem de gente, indo e vindo de todos os lugares. Adalberto aparenta em seu rosto sono e cansaço. Ele chega numa pequena padaria no mercado público, e como de hábito pede uma taça de café preto, e um pastel. Naquela manhã de segunda-feira, algo fora de sua rotina, ao invés de engolir a bebida quente num só gole, e entupir a boca com massa e guizado, ele é interpelado por um velho amigo.
– Dadá! Era assim que o outro o conhecia. Você por aqui. Como vai? O quê anda fazendo desta vida? Adalberto demorou um pouco para reconhecer Edmilson. Há anos não o via.
– Ed, meu bruxo. É tu mesmo? E esta barriga? Tá passando bem!
– Não dá pra se queixar, mas sabe como é, estamos sempre querendo um pouco mais, mas graças a deus pra “costelinha” de domingo ta dando.
– Há quanto tempo?
– Bah! Faz muito. Acho que foi numa festa da Judite, isto faz para mais de cinco anos, e foi quando eu ainda morava no interior. Mas me mudei. Tô em Porto, agora. E tu?
– Faz algum tempinho que estou aqui, uns quatro anos. Moro no menino Deus, e trabalho num escritório na Voluntários.
– Que vidão!
– Que dera meu amigo. Quem dera!
– Tu me pareces um pouco angustiado... Cansado...
– Pudera, passei esta noite no sexto velório da semana.
– Não me diga. Que coisa triste.
– Triste? Isto não é nada, perto deu estar começando a pensar que sou o culpado por estas mortes. Ao Adalberto terminar sua frase pode-se perceber a pela clara de Edmilson ficar rubra e seus olhos se arregalarem com tal informação. – Não se assuste! Não matei ninguém! Concluiu Dadá.
– Não, não é isso... É que da maneira que falaste...
– Bem acho melhor para com a conversa, além disso, estou atrasado, e não quero te aborrecer com minhas teorias malucas.
– Nada disso. Somos amigos, e vejo que talvez tu precises desabafar.
– É que eu acho que estou amaldiçoado.
– Não fale bobagens, foi uma semana complicada apenas. Amanhã vai ser melhor. E entre os falecidos, alguém da família?
– Sim a Tia Cota, e o Tio Zé. Aqueles de Canoas.
– Me lembro deles, boa gente. Meus pêsames. O que aconteceu com eles?
– É isto. Eu sou amaldiçoado.
- Mas por quê? Por acaso você os matou? Negligenciou ajuda?
– Não, foi até o contrário. Na terça, como sempre levanto seis e meia para tomar banho, e depois sair pro trabalho com bastante calma. Para minha surpresa, o Tio me ligou um pouco antes das sete. Pediu-me que no horário do almoço desse uma escapada até Canoas para fazer-lhe um favor.
– E aí?
– Nada. Combinei com ele apenas.
– Então não tem nada demais.
– Mas é aí que as coisas se complicam. Um pouco antes do Meio-dia a Tia Cota me liga com a voz embargada dizendo que o tio fora atropelado ao ir ao mercado comprar mantimentos. Seus ossos fracos não resistiram ao choque, e ele faleceu. Maneira inapropriada para um senhor de setenta anos, morrer de forma tão violenta. Que morresse de uma parada cardíaca, seria mais justo com ele.
– Sem dúvidas é uma grande tragédia, mas para você julgar-se amaldiçoado por causa disto já é um cúmulo.
– Calma. Ainda não te contei tudo. À noite fui ao velório. Não sei donde surgiu tanto parente. Ele era muito quisto pela família... Mas... Vou direto ao ponto. Por volta de uma da manhã, fui despedir-me da Tia. No dia seguinte teria um dia repleto de reuniões. Mas antes que meus sapatos rompessem a porta de saída ouvi o som agudo e abafado e o barulho de cadeira sendo arrastada por um corpo que caía falecido. Tia Cota não suportou a emoção e debulhou "mortinha da silva". Foram-se as reuniões, e veio outro velório...
– Meu Deus! Que tragédia, meu amigo! Que coisa triste, tem razão por isto, mas não te julgues amaldiçoado. Não teve nada a ver com você.
– Mas você ainda não ouviu toda a história. Falei que foram seis velórios. Na verdade foram cinco. Num deles não fui, mas como vi a tudo acontecer me deu vontade de ir oferecer meus préstimos a família... Cheguei do enterro de meus tios depois das seis, dormi feito uma pedra, e acordei-me apenas no dia seguinte. Atrasado. Então chamei um táxi para chegar a tempo. Fomos conversando pelo caminho, principalmente sobre a vitória do inter, que eu não assisti na noite anterior. Numa fração de segundos o carro foi abalroado por um ônibus, que acertou em cheio a porta do condutor. O homem morreu agonizando na minha frente. Eu não me feri.
– Credo! Que semana carregada. Que barra. Mas não desanime. Fatalidades acontecem, e por mais que elas tiveram certa ligação com você, não é sua culpa. Edmilson tentava minimizar a situação, enquanto o líquido negro esvaía-se das xícaras.
– O problema é que não parou por aí. Chocado amanheci sexta-feira buscando não falar com as pessoas, até mesmo porque tinha essa desconfiança que talvez estivesse amaldiçoado... Mas não tive sucesso. Meu gerente entrou nervoso querendo saber sobre umas apresentações. Fui obrigado a falar com ele. Às três da tarde, ele foi baleado num assalto no banco onde ira com o malote... Morreu no hospital.
Ao passo que a conversa avançava e o clima ficava tenso Edmilson sucumbia às dores de seu amigo. Tinha vontade de terminar a conversa ali mesmo, mas em respeito ao passado dos dois se dispôs a ouvir, afinal, ainda faltavam duas mortes. – Não quero concordar contigo. Não acredito em maldições. Talvez coincidências. São mais plausíveis.Disse ele.
– Sempre foi cético Edmilson. Coincidência ou maldição, o fato é que na última semana todas as pessoas com quem falei pela primeira vez no dia, acabaram falecendo. Passei o sábado fugindo de conversas, sequer o telefone atendia... Porém havia esquecido que a diarista iria pegar o pagamento de tarde... Fui obrigado a falar com ela, pois precisava pagar-lhe, e mesmo pouco religioso fiz uma oração. Não adiantou vi-a atravessar o sinal e ser atropelada por um caminhão de madeira. Fui ao quarto velório. Domingo de manhã sem ter com quem compartilhar liguei a um amigo... Morreu de tarde... Nem sei do que foi, e não me interessava... Apenas eu sabia que o problema era comigo... Com a maldição que devo estar carregando.
– Por Jesus Cristo! Não acredito em maldições, mas desta forma vai acabar me convencendo... Está na minha hora...
– Eu também estou atrasado.
– Fique tranqüilo. Tudo nesta vida é passageiro, e pare de crêr que está amaldiçoado... Tudo não passou de mera coincidência. Se acalme que estes dias passarão.
– Tomara meu amigo. Tomar! Eu vou por aqui.
– Eu entro nessa rua. Foi uma semana ruim pra você, mas valeu te encontrar aqui. Qualquer dia desses vamos fazer um churrasco.
– É só combinar...
– Me de seu telefone que eu te ligo... Ah! Só mais uma pergunta Adalberto. Não que eu acredite que estejas amaldiçoado, mas por acaso conversou com mais alguém hoje?
– Pra ser sincero contigo, eu estava tentando não falar com ninguém, mas quando tu chegou animado com nosso reencontro, não tive coragem de negar-lhe conversa.


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sexta-feira, 28 de março de 2008

O PASSAGEIRO FANTASMA

Talvez quem não seja acostumado a viagens noturnas não vá entender sobre minha cisma de andar de ônibus à noite. Uma esfera de mistério envolve o ato de cruzar quilômetros de asfalto envolto por sombras e segredos que somente se revelam nos momentos mais indesejados. Mas nada se compara com o que enfrentei naquela noite, uma sexta-feira. Não era treze, mas podia. Por tudo que aconteceu. Não há mais ninguém que possa confirmar, mas isso é um detalhe que serve para detalhar o quão assustadora aconteceu àquela noite.

Dirigia-me a São Paulo, e por ter medo de avião, preferia sempre andar de ônibus, embora meus receios com a parte noturna da viagem. Mas até aquele momento não havia motivos para maiores medos. O som do motor fazia um barulho abafado, e o carro deslizava entre as curvas da Regis Bittencourt. A noite tinha-nos abraçado fazia umas três horas, e pela janela apenas o breu e a sombras das árvores e das montanhas se insinuavam.

Tinham-me por sovina, talvez se justificasse, afinal jamais viajavam em linhas diretas, sofrendo um pouco mais com os “pinga-pinga”, porém pagando menos. Também me agradava conhecer um número maior de lugares. Estava sentado na ultima fileira. Tinha preferência pelo fundo, embora vez por outra visitantes do banheiro pudessem causar infortúnios. Estava esfriando, e me virava dum lado pro outro, tentando me acomodar. Esperava chegar a São Paulo pelo início da manhã.

Inquieto, busquei por um livro. Tentei ler, mas era impossível, pois a luminosidade era pouca, e minha visão não era mais a mesma. Restou-me olhar pela janela, já que o sono não vinha. O motorista parecia com pressa e as curvas eram engolidas pelo ônibus. Parecia que nenhum outro veículo se aventurava na rodovia, e talvez isso até fosse possível, pois poucos são os corajosos de enfrentar uma estrada perigosa naquele horário. Os riscos são muitos, mas aquele motorista não possuía outra alternativa, apenas seguia seu caminho como lhe ordenado.

A condução não estava cheia. O ultimo a embarcar tinha sido uma família, numa cidadezinha paranaense. A mãe, e três filhos. Faltava-lhes o pai. Talvez os esperasse em seu destino. Pobre homem deve ter ficado esperando em vão. Sim, pois eles jamais chegaram ao seu destino. Apenas eu. Pergunto-me a razão para apenas eu. Mas enfim, quem sabe tenha sido o mais atento ao grande perigo. Sempre tive manias estranhas, e para minha sorte uma delas era encarnar personagens do cinema e da literatura. Um ser estranho você pode pensar, mas foi graças ao meu instinto e meus personagens que escapei da morte, e do inferno.

Os espiões sempre me ensinaram uma lição básica, que lhes garanto que um dia pode ser útil. Devemos estar atentos, e principalmente reconhecer o ambiente que nos encontramos. Sempre fiz isso, e confesso que em várias oportunidades isto me foi útil. No momento que você faz tal reconhecimento, também consegue calcular possíveis riscos. Estimo ter escapado de no mínimo de dois assaltos usando esta técnica. Mas naquela noite, mais do que um assalto, creio que o método me ajudou a salvar minha vida.



Acho que entre todos dentro do carro eu era o único a estar acordado, além do motorista e do cobrador é claro. A maioria não percebeu a freada brusca do condutor. Apenas uma velhinha sentada umas cinco filas a frente fez menção de acordar. Alguém esperava num ponto. Um passageiro. “Que diabos quer alguém esperando ônibus á esta hora?” perguntei a mim mesmo. Temi por roubo, coisa infelizmente normal nas estradas. Mas aproveitei para abrir a janela rapidamente enquanto o carro parava. Não havia nenhum sinal de vida por perto a nãos ser de animais, e inseto, e do novo passageiro.

Fechei a janela. E voltei a me concentrar novo companheiro que entraria logo no corredor. Estranhei a demora. Olhei para a cabine e uma figura esguia fazia gesto e conversava com o motorista e seu auxiliar. Aquilo durou cerca de um minuto aproximadamente. Minha visão não era nítida, pois estava escuro e as luzes estavam apagadas. Não podia definir nada mais que a altura e a óbvia magreza do cidadão. Quando ele entrou no corredor senti um vento soprar, o que tirou minha atenção, e fez-me olhar para a janela. Pensei tê-la esquecido aberta, mas ela continuava fechada.

O estranho sentou-se logo na primeira fila. Podia avistar sua cabeça, e parte do pescoço, que ficavam fora do encosto do banco. Estranhamente o ar ficou mais gelado, e não tinha nenhum casaco comigo. A primeira sensação me causou arrepios, e percebi que os pêlos de meus braços estavam eriçados, e suava como um cão pressentindo o perigo. Não tirei os olhos do novo passageiro, que até ali nada de anormal havia feito, a não ser é claro por sua própria fisionomia.

Uns vinte minutos após a entrada dele no ônibus, mantinha a vigilância. Notei que os passageiros da primeira fileira começaram a conversar com ele. Na verdade, não parecia uma conversa, e sim sussurros. No banco ao lado do novo passageiro ia uma mulher. Lembro-me de seu rosto, pois ela havia entrado no carro antes de mim, era muito bonita. Tinha olhos vivos e flamejantes. Pouco depois da conversa, seu braço esquerdo caiu sobre a poltrona como se estivesse mais pesado que seu corpo. Ela parecia desfalecida. Vi o estranho virar o rosto para o outro lado, e voltar a sussurrar. Um frio na espinha percorreu meu corpo.

As coisas começaram a piorar quando percebi o ônibus diminuir a velocidade, e de repente começar a sacolejar. Aquele não era mais o caminho. Busquei olhar pelo vidro, e não avistava nada mais que sombras. O ônibus estava envolto pelo nada absoluto, e trafegava por estradas não conhecidas. Não pensava noutra a não ser assalto. “Estão nos levando para um lugar ao ermo, e nos roubar” cogitava. Não sabia qual atitude tomar, até mesmo porque ignorava se o estranho estava armado ou não.

Refletia quando percebi que o passageiro mais recente visitava poltrona por poltrona, e a cada visita os corpos desmaiavam. Faltava pouco para chegar até mim, e á medida que avançava percebia seus traços finos e longilíneos. Sua pele clara, alva. Branca qual farinha. Seus olhos sendo revelados pelas sombras mostravam-se profundos e ardentes. Jamais vou esquecer aqueles olhos. Causava-me muito medo, um medo único, um pavor nunca antes sentido. Estranhava não existir contato, tampouco troca entre ele e os demais passageiros que sequer reagiam. Apenas adormeciam.



O estranho não falava uma única palavra, apenas sussurrava. O sopro de sua voz gelava ainda mais o ambiente, e antevendo um confronto levantei-me, e puxei a campainha. Preparei-me para descer, e segui em direção ao corredor. O estranho estava no meio da condução e quando percebeu meu ímpeto sobressaltou-se pela primeira vez. Fechou a passagem, e proferiu “ninguém desce desse ônibus”. Sua voz se mostrou grossa e profunda, e de sua boca um hálito fétido tomou conta do ambiente fechado. A melhor coisa que pensei foi fugir ao fundo da condução, ainda a tempo de ver alguns olhos vidrados e passivos ao que acontecia.

Joguei meu corpo contra a janela, sem me preocupar com o que enfrentaria. Os vidros se estilhaçaram, e me projetei para o exterior da condução. Quando meu corpo tocou o solo senti os ossos quebrar, e uma dor aguda. Rolei alguns metros de barranco. As lanternas traseiras do ônibus eram a única luz, que ao pouco foram sumindo em meio à madrugada. Respirei profundamente, e quando o sol raiou e vi-me envolto a árvores e montanhas. Adormeci.

Quando acordei, estava numa velha cabana, e um senhor de idade avançada tratava meus ferimentos. Contei-lhe a história. “Eu já imaginava isto. Não tenho dúvidas, você escapou do passageiro fantasma. E até onde eu sei foi o único. Ele surge na sexta-feira sem lua, embarca em ônibus e o leva para o inferno. É trato dele com o diabo. Acho melhor rezarmos pelas almas que ele carregou”. Quando o velho terminou suas palavras senti certo alívio, e ao mesmo tempo culpa por não ter salvado ninguém. Porém não resolvi pensar muito, mesmo ainda machucado preferi segui o caminho contrário daquela estrada, pois seu destino não me atraía, e muito menos aquele velho me inspirava confiança, afinal ele estava na metade do caminho.

quarta-feira, 19 de março de 2008

MESA PRA TRÊS

O copo com uísque já na terceira rodada estava quase vazio. A fumaça de um cigarro mentolado escondia um dos rostos que confabulavam na mesa sete do bistrô. Quase todos os clientes haviam partido, e apenas eles permaneciam, bebendo, conversando, traçando rumos importantes para Cafundópolis. A mesa ficava ao fundo um pouco longe das vidraças que davam para a calçada. Afinal, não era propício que o presidente da Câmara cujo nome que o elegera foi Sapo, e sua principal propaganda um fusca com o desenho do anfíbio, se reunia e bebia amigavelmente com o valoroso oposicionista Valdir do Buteco. A eles se juntava o líder do partido de Sapo, nobre vereador Carlão do Posto.
– Como tu está inspirado este ano Valdir. Tenho pena da prefeita. Provocava Sapo, com a voz embargada pelo álcool. – Ao contrário meu colega, e a chefe do seu governo que precisa ter pena de nós. Devolveu ele depois de retirar seu cigarro da boca, e tragar profundamente, e depois expelir uma fumaça de cheiro medonho no ar. – Se os fiscais te pegam fumando aqui... Continuou brincando Sapo, pois o lugar onde estavam era de sua propriedade, e de modo algum seguia as leis. Alias a principal fonte financiadora de suas campanhas estavam nas duas mesas de pife que aconteciam terças e quintas numa saleta nos fundos.
– Mas penso que não estamos aqui para falar da prefeita, ou dos fiscais dela.
– Assim começo a gostar dos andamentos da conversa, e vejo Valdir, que não faz aqui como no plenário, com discursos evasivos. É disto que o povo precisa meu caro: objetividade.
– Sempre falastrão Sapo. Depois sou eu quem fica falando em rodeios.
– Não seja tão apressado, colega. Beba um pouco mais. Senão este copo terá mais água que álcool.
– Não tenho muito tempo, amanhã vou a capital atrás de recursos para a vila, e partirei ao amanhecer.
– Nisto não posso crer. Que político é você que pensas em dormir cedo, num momento tão decisivo, pois não esqueça que amanhã a noite tem sessão, e é na madrugada que as coisas se definem neste meio, meu amigo.
– Eu sabia. Você deve estar precisando de apoio para mais alguma loucura de seu governo. Mas saiba que neste ano, embora minoria, nossa bancada pretende fazer barulho. Não deixaremos que ganhem novamente.
– Sempre tomando sopa quente. Se acalme homem. Alias chamei-o para este encontro, não por causa do executivo, e sim pelo bem de nós vereadores, pois tenho que concordar que a prefeitura hoje não nos representa por inteiro, tampouco nosso povo.

– Garçom, mais uma cerveja. Estas foram ás primeiras palavras de Carlão depois de começado a conversa com mais ênfase entre seus dois companheiros. Estava ali para representar o partido, e para manter sua imagem de fiel escudeiro de Sapo. Entre os três tinha menos idade, e sua função naquela noite era testemunhar um provável acordo, e se necessário ajudar a convencer seu colega da oposição.
– Então para de dar meais voltas com as palavras e diga logo porque estamos aqui. Disse Valdir.
Tragando o ultimo gole do uísque e devorando o ultimo cubo de queijo do tira-gosto, Sapo começou a falar de suas intenções.
A – Sabe bem o colega que amanhã a prefeita envia a nossa casa legislativa um projeto para cobrar a iluminação pública.
– Sim, e acho que se fosse governo como vocês, estaria cuspindo fogo pelas ventas. Tenho informações que os colegas pouco sabem sobre o projeto.
– Este também é um problema...
– Problema qual não tenho nada a ver... E na verdade em nome de nossos cidadãos este projeto já esta vetado antes mesmo de sua apresentação.
– Não se precipite colega. Também não blefe, pois sabe que a maioria aprovará. Pois somos a maioria.
– Nunca se sabe, não é?
– Não caio em suas artimanhas. Você é ardiloso, mas ainda controlo aquela casa.
– Então, se já esta tudo aprovado não entendo porque me chamou. Não temos tempo para conversa fiada.
– Ora. Não seja precipitado. Sabe que existem muitos fatores que envolvem este projeto.
– Não entendo aonde o colega quer chegar.
– Permita-me explicar melhor. O amigo sabe que a oposição irá gritar, ir aos jornais, ao rádio, fazer um barulho enorme. Para talvez “roubar-nos” alguns votos. Não conseguira nada além de barulho. Por outro lado se o projeto do executivo, da maneira que esta, taxando a energia pública sobre o percentual que já gastamos com a luz. Acredito que este projeto também não será positivo para nossa imagem.
– Agora fiquei mais perdido que cego em tiroteio. Ou entendi mal, ou o senhor não quer que a oposição seja contra, mas também não apóia a idéia de sua “querida” prefeita.
– Não estamos aqui para ironias Valdir. O assunto é sério.
– Não estou com ironias meu caro, mas que continuo sem entender. Você é contra, mas fala na aprovação do projeto.
– O colega sabe que o Tribunal de Contas não permite renuncia de receitas. A taxa de iluminação pública tem de ser criada, me refiro apenas sobre sua maneira, pois sim, não fomos escutados, e isto é um desrespeito com toda a casa legislativa. Mas isto também não vem ao caso, pois quando o chamei, o fiz por causa de uma luz que se apresenta ao fim deste túnel nebuloso.
– Então continue.
– Pois bem. Antes de falar-lhe de uma hipotética proposta, da qual espero que o senhor não utilize conta nós algum dia, lhe pergunto, o projeto do jeito que está é bom para o povo? E nós vereadores, e estamos sempre no subúrbio das decisões, o que ganhamos com isto? Não, o projeto não é bom para nosso povo, imagine nossos queridos empresários pagando três por cento sobre suas faturas da conta de energia. É um custo muito alto, e sabemos bem, já que aqui, cada um de nós tem seu comércio. Além disso, o custo político é alto, e mesmo vocês da posição pouco ganharão com seus gritos.
– Disso concordo com tudo, mas não compreendo ainda.
– Vou ser mais direto, mas que morra aqui entre nós. A bancada da maioria tem proposta. Dentro do partido conversamos alternativas, e sabemos das reações negativas, porém também não podemos travar o governo. Assim criamos uma alternativa. A nossa casa legislativa tem a soberania do método de contribuição desta taxa, e convenhamos nenhum de nós que uma taxa alta, e sei bem Valdir do consumo de energia que utilizas. Pense pagar três por cento sobre isso. Se aprovarmos isso quero ver algum empresário financiar nossas campanhas.
– Concordo. Mas...
– Não me venha com mais indagações, e deixe-me terminar. Tenho aqui a matéria com alterações, e a nossa proposta é que votemos por uma taxa definida em valores, e assim nossas empresas, e as de nossos amigos nãos serão castigadas com mais impostos. O senhor sabe que isto beneficiará a todos.
– Por esse lado. Mas não sei se consigo convencer os outros cologas oposicionistas do mesmo.
– Conseguirá meu amigo.
– Não tenha certeza, pois o José é arredio, e é do sindicato, e não ta nem aí pro empresários.
– Calma, não é a toa que nosso colega Carlão está aqui. Embora calado e nos ouvindo nosso amigo que lembre-se o senhor, que nosso amigo aqui também é o presidente da Associação Comercial e traz-nos uma proposta ainda melhor.
Chamado ao assunto Carlão não se furta em entrar em ação na tentativa de selar o acordo.
– Pois bem. O amigo Valdir sabe do temor da Associação e seus membros com a proposta do executivo. Seríamos onerados em demasia, e por isso nos precavemos em instituir um pequeno fundo – ele escreve a quantia contida no tal fundo num pedaço de guardanapo capaz de fazer Valdir engolir a seco pela surpresa do valor apresentado – que nos dispusemos em partilhar dividindo-a igualmente entre os colegas.
Tragando um gole do uísque que recompunha novamente o copo, Valdir levantou-se da mesa olhou aos dois, entendendo-lhes a mão. – Os colegas me convenceram. Até amanhã. E não se preocupem com o José.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

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Ninguém sabe ao certo porque a música desperta sentimentos. Poucos estudos sobre isto foram realizados, por talvez, não ser interessante descobrir toda a verdade. Mas Jeremias sabia muito bem o poder que tinha suas composições. Ele as criava soturnamente, na madrugada, um vulto errante naquele pequeno cubículo bagunçado e sombrio. A luz era parca, e sem dinheiro para pagar a luz, eram apenas as sete velas a queimar que lhe davam a luz suficiente. Seus olhos esbugalhados pelo sono a ser vencido miravam o copo de café, quente e amargo. Tinha pouco tempo para terminar seu trabalho. O dinheiro também findava.

Mais sombrio que o próprio apartamento alugado há seis meses, era Jeremias. Seu rosto, de expressões profundas, não escondia as amarguras de uma vida. Meio século de fracassos acumulados e uma raiva pela humanidade, e por seus pares. Nenhum disco gravado, o ultimo show fizera uns dois anos atrás, num bordel onde a mulher mais bela pesava mais de três dígitos. O sucesso que sonhara jamais se aproximou, e dele fugia como o diabo da cruz restando-lhe as migalhas das esmolas ganhas pelos acordes tocados no centro da cidade. Não davam sequer para o pão de cada dia. Sua escolha era voraz, mas escolhia sempre pela cachaça, e pelo ódio voraz que nutria por seus pares. Mas Jeremias entendia da música.

Não me atrevo dizer que ele era um grande tenor, ou o maior de todos os compositores. Mas Jeremias entre muitos, sabia como poucos o poder das notas, dos acordes... O som que acalmava um coração sofrido, uma canção que explodia dois amantes num frenesi de paixão, as notas fúnebres de um cortejo... Jeremias sabia que cada som era capaz de provocar uma sensação, fosse ela boa, ou ruim.

Por isso tinha naquele seu trabalho, o último. Depois dele nenhum outro. As últimas onze músicas de sua vida. Sabia que depois de pronto, o disco a ser gravado com seus últimos trocados entraria para a história. Todos conheceriam seu talento e o quanto Jeremias sabia compor. Era alvorada, dum dia que nascia vermelho ao horizonte quando ele ainda num misto de zumbi com gente saiu para ira até a gravadora que faria seu “demo”. Um sorriso jocoso se instalou e seu rosto de olhar profundo e gélido. “Demo”. Pensou. É justamente isto que representa esta “porcaria”. Concluía seus pensamentos.

Uma semana depois o carteiro chegou à casa de Jeremias. Este aguardava sentado há exatos sete dias, sem sair da poltrona, nem mesmo para banhar-se. Apenas as moscas o acompanhavam. Ele recebeu a encomenda e partiu. Bateu na porta de várias rádios, e não é preciso dizer que quase todos lhe negaram a oportunidade de rodar sua demonstração. Também não podemos criticá-los, só os que viram Jeremias tinham condições para discernir o farrapo humano que se tornara aquele homem. Porém, sempre, sempre haverá alguém disposto a ajudar um pobre coitado. Foi na rádio noventa e cinco ponto um que seus diretores tiveram a infeliz idéia, e se comprometeram a tocar a música de Jeremias. – Ouça depois da meia noite, senhor, lhe prometo que ela será tocada. Disse-lhe o homem que o atendeu. Por sorte não era horário de grande audiência, mesmo assim...

André Tavares era um dos ouvintes atento a programação da madrugada. – Amigos da Rádio Noventa e Cinco Ponto Um, vamos tocar agora o som de um amigo. Jeremias, aquele do centro e do metrô... Pois é Jeremias alcançou seu grande sonho, e aqui está seu primeiro CD. Vamos ouvir o que ele nos apresenta neste trabalho... O Técnico deu o play, e um som melodioso e extremamente triste ecoou pelas ondas sonoras do rádio. A música penetrava no corpo de André que via as imagens de todas as suas tristezas se formava bem a sua frente. A música era longa, dolorosa. Sua garganta ficou embargada, seus olhos despejavam lágrimas, e uma vontade irretratável se apoderou de seus sentimentos. Antes que o rádio tocasse a ultima nota André apertava o gatilho de um revólver que mantinha em casa. O tiro estourou sua cabeça. Foi apenas um, entre as dezenas que ouviam a rádio naquele instante. Outros se enforcaram, enquanto uns buscaram a ponte mais próxima, o a janela de seus apartamentos. Jeremias entendia de música, e do poder dela sobre as pessoas. Jeremias também entendia de vingança.


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sábado, 23 de fevereiro de 2008

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Ter o corpo colhido pela carreta carregada de toras de madeira, e sentir suas carnes, e seus ossos serem esmigalhados pelo metal do veículo eram dos problemas os menores que João Antônio vivia naquele momento. Sua saga aterrorizante começara durante a discussão com sua esposa. Enfurecido resolveu sair de casa e ir ao boteco tomar umas de cana para afogar suas mágoas. Seu primeiro erro foi desistir desta idéia, pois se talvez estivesse embriagado nada tivesse lhe ocorrido, pois de todos os santos o mais poderoso é Santo Onofre, pois jamais vi gente de sorte como os “bebuns”. Só mesmo o auxilio de um Santo poderia explicar certas feitas, e, inclusive o próprio João Antônio sabia disto. No entanto, na metade do caminho ele resolveu voltar, e pedir perdão. Logo ele que jamais fizera isto. Quando atravessou a rodovia, foi então atropelado pela carreta.
A dor que sentiu foi rápida. Viu pouca coisa, pois logo seus pedaços encheram o radiador, e outras partes do caminhão que freou bruscamente, deixando o asfalto com a névoa dos pneus sendo queimados pela ação dos freios. Um único grito foi o que se ouviu de João. Nada mais. Quando finalmente conseguiu para o caminhão, seu motorista desceu num misto de pavor, e de ódio ao homem que se atravessara em sua frente. – Louco!Louco! Louco! Era a única palavra que vinha de sua boca.
Não demorou a uma multidão se aglomerava. Algumas mulheres, de estômagos mais sensíveis, regurgitavam seu lanche da tarde, e até mesmo seu almoço. Uma mãe correu a tapar o olho de seu menino que estava com os olhos vidrados no corpo desfigurado, e do sangue que corria pelas bordas da rodovia. Sentindo-se estranho, um ser se aproximou para ver o que acontecia. Era ninguém menos que o próprio defunto, que só percebeu o fato após dezenas de tentativas de conversar com alguém, sem ter de volta alguma resposta. Seu maior choque se deu ao ver seu próprio rosto caído para baixo do barranco. As feições da morte daquela cabeça desprendida do restante do corpo era algo de mórbido, que o recente espírito tentava em vão segurá-la. João Antônio não passava de partículas no ar. Sua presença física encontrava-se inerte. Gritou com uma dor tão intensa, que não duvido que almas mais sensíveis, tivessem escutado seu lamento.
Mas como disse no princípio, este de seus problemas era o menor de todos. Antes mesmo que o carro negro da funerária chegasse para carregar sua carga física, seu espírito foi envolto por figuras humanóides, que não passavam de sombras. Ele sentiu pela primeira vez lhe tocarem. Eram as sombras que puxavam seu plano espiritual para dentro de um túnel negro que se abria a sua frente. Ele pressentia que não era coisa boa o que se apresentava, mas não consegui resistir ao seqüestro, e logo ele estava dentro de um cubo completamente negro. Não via nada, e apenas caminha em direção ao ermo. Ao modo que avançava o calor se tornava mais intenso, e o caminho mais estreito. João Antônio sentia-se como um claustrofóbico preso em um elevador.
Ele andou muito, e só não desmaiou, pois já não era mais humano. Se ainda estivesse vivo jamais suportaria tal caloria que tinha naquele lugar, ou conseguiria respirar com o fedor que dominava o ambiente negro, e sem destino. Tinha um odor característico. Mas ele não conseguia lembrar. Aliás, não conseguia pensar em mais nada que não fosse sair daquele lugar. Então, quando ele menos esperava o cubo se desfez, e ele estava num salão amplo e circular. Ele estava planando sobre uma ilhota de terra envolta por um rio de lava vulcânica, abastecido pelas dezenas de cachoeiras alaranjadas e ferventes que o circundavam. De uma destas quedas formou-se a imagem de um rosto esguio e de olhos voltados para baixo. Eram olhos finos e diabólicos. Bem, isto é o mínimo que se pode dizer do demônio. Era o próprio que fitava aquela alma recente. – Sua alma me pertence. Disse a figura de fogo. – Você deve ter se enganado, eu não devia estar aqui. Retrucou João Antônio. – É o que todos dizem. Rebateu o demônio. João Antônio parou, e não falou mais nada. Esperava por uma interferência divina, ou talvez por uma palavra que convencesse o demônio a libertá-lo.
De fato não era para João Antônio ter ido para no inferno, mas uma vez estando lá era praticamente impossível de sair. Ele continuava calado, e começava a entender o tamanho de seus problemas. O caixão em que repousava seu corpo físico era sem dúvida muito mais confortável que o lugar onde sua alma começava a sofrer com os castigos da besta.