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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

2.499 - Uma visão futurista

13 de novembro de 2.499. Em Porto Alegre, está calor, mesmo ainda sendo primavera, a estação das flores e dos coloridos ipês que transforma o parque da redenção numa tela valiosa. No complexo residencial Alpha, Jason Prates é despertado pelo som suave em sua mente. São 06:00 da manhã. A janela virtual na parede de vidro se descerra permitindo a luminosidade da manhã penetrar em sua casa. Ele está feliz. Abre seus olhos, espreguiça-se, e toca de leve em J-35. Ela esta inerte sobre a cama. Nua. É um robô, tão perfeita, que não soubesse ele se tratar de uma máquina, não acreditaria. Mesmo desligada, há pulsação. Há calor. Foi uma noite inebriante...

Em tempos remotos ele seria um pervertido. Ter uma máquina apenas para o prazer sexual – se bem que J-35 era um modelo bem mais avançado e que cuidava de todos os afazeres domésticos, fato pelo qual alguns saudosistas a chamavam de Amélia – porém não lhe era uma excentricidade, ou tara naqueles modernos tempos, e sim uma necessidade. Há muito tempo, desde, que as mulheres descobriram que o homem não era fundamental para a procriação, e passaram a preferir outras mulheres, havia poucas alternativas. As fêmeas praticamente em totalidade aderiram ao lesbianismo. Se bem que grande parte dos homens quando isto ocorreu, eram homossexuais. Assim, como Jason, restou cerca de um terço da população de homens, uma grande fatia de mercado para os fabricantes da J-35.

Enquanto ele se dirigia ao banheiro, ordenou através de seu chip ligado as linhas neurais de seu cérebro com comando via wireless para que o integralizador de alimentos providenciasse seu café da manhã. Escolheu torradas, e chá verde. A máquina começou prontamente a ler os códigos binários arquivados em sua unidade de processamento, e iniciou a leitura e integralização da solicitação de Jason. Enquanto isso ele escovava os dentes, sentava no vaso e assistia na tela de cristal líquido que compunha o box, as informações dos jornais da manhã. Falavam de algum distúrbio em São Paulo, que desde a sua decadência e da invasão das águas era habitada por deportados.

Lavou-se, e quando se sentou à mesa a torrada e o chá emanando uma fumaça quente o aguardavam. Com o desjejum feito, vestiu-se. O dia seria de agenda cheia. Haveria uma reunião em Roma. Dirigiu-se até a cápsula de aerotransporte acoplada à parede de seu apartamento, e acionou a partida. Enquanto a esfera de cristal e circuitos elétricos viajava cortando o ar, no piloto automático, no menu sensível ao toque, ele selecionou a opção refletir, e observou como Narciso, seu rosto no espelho. “Nossa, como sou bonito!” pensou. Na verdade, não estava nada mal. A pele lisa, de cor clara, seus olhos limpos, sem sinais de cansaço, e sua vitalidade, embora não fossem nada anormal para um homem de meia idade, ele estava acima da média, e tinha certeza que no dia de seus 70 anos, bons negócios seriam concluídos.

A esfera acoplou no andar de seu próprio escritório. – Bom dia, Viviane. – A reunião com os italianos foi adiantada para às 09:00, senhor Prates. Ele foi surpreendido pela secretária eletrônica, um computador pessoal bípede. – Tenho que me apressar então. E saiu imediatamente para o andar onde ficava a sala de viagens. Sua empresa havia gasto uma verdadeira fortuna para a instalação das T.Mach’s. Cinco equipamentos para tele-transporte de dados brutos e biológicos. A invenção do século segundo a Time de 2.489. Na verdade a T.Mach’s digitalizava as informações escaneando o que dentro dela estivesse, e depois as repassava paras as T.mach.d que liam as informações, e as reproduziam fielmente. Todo o processo de scanner, transmissão de dados, e recomposição levava cerca de uma hora, portanto Jason Estava atrasado.

Para que o sistema funcionasse, corporações ou órgãos públicos adquiriam as T.mach’s, já as principais cidades do mundo construíram terminais com as T.Mach.d, e assim as viagens internacionais foram facilitadas. Na época da criação do sistema, e após cinco anos de uso com total sucesso, e com a inexistência das variantes que no início causaram alguns acidentes, o Tele-transporte substituiu a aviação civil, e finalizou de vez com os acidentes aéreos.

Depois de vinte minutos a máquina leu todas as informações necessárias, e enviou os dados para a estação de Roma, que prontamente na cabine 101 iniciou cópia dos dados recebidos. Na verdade Jason não viajou. Suas informações numéricas, apenas chegaram á Roma. Uma cópia exata do corpo que controlava o Avatar ou clone como diziam alguns, de sua segura cabine em Porto Alegre. Pela rede transmissões nervosas de Jason Viam o que seu Avatar em Roma enxergava. O Avatar era totalmente submetido aos comandos do arquivo original, graças a um código inserido automaticamente nas informações transmitidas para as máquinas de recomposição de dados. Jason não se atrasou para o encontro. E talvez por causa de seu pensamento positivo, efetuou uma venda considerável. Terminada a sua missão o Avatar de Jason dirigiu-se uma T.recycler, e se autodeletou. Jason era muito pragmático e, raras vezes levou suas cópias para visitações e turismo.

Terminada a missão, voltou ao seu escritório, onde conectou o cabo USB ao seu banco de arquivos, e arquivou os dados em vídeos da viagem. – ÀS 12:00 horas o senhor deve estar na clínica do Dr. Morethi lembrou-lhe a secretária. No horário marcado ele estava lá.

- Bom dia doutor.
- Como estamos hoje, meu caro amigo.
- Um pouco cansado por causa de uma viagem à Roma.
- Entendo.
- Foi uma boa reunião.
- Negócio lucrativo então, se bem lhe conheço.
- Digamos que não foi tão mal.
- Continua modesto e chorão, mas vamos a nossa consulta. Com tem se sentido?
- Tudo normal.
- Então faremos os exames de rotinas. Por favor, encoste o dedo. Jason pôs seu dedo num nano-agulha que coletou seu DNA e repassou as informações instantaneamente para o desktop do médico.
- É sua saúde ainda está forte. Pelo que vejo teremos pouco a fazer. A não ser que você queira algo mais incisivo.
- Estou pelo senhor.
- Desta vez trocaremos poucos órgãos. O coração deixaremos para o próximo triênio. Acho que apenas o pulmão merece uma reposição, talvez o pâncreas... Pelo visto tem visitado alguns lugares poluídos... e Comendo o que não deve.
- O senhor está sempre certo.
- É mas não porque podemos trocar nossos órgãos e tecidos que se deve exagerar, meu caro.
- Eu sei...
- Bem, podemos fazer estas reposições hoje pela tarde, á noite, estará liberado.
- Hum! Pode ser me preparei para isto...
- Então vou repassar as ordens para os enfermeiros.
- Doutor...
- Sim?
- Se não for abuso, posso trocar também o fígado... É que irei a algumas festas neste final de semana... E sabe como sou exagerado, às vezes. Um fígado novo é mais forte...
- Pois bem, falamos isto também... Continua o mesmo levado de sempre.

Os dois riram.

- Bem, que tal almoçarmos, enquanto a equipe prepara o material... Sempre leva um tempinho até os órgãos serem recriados.
- Aceito o convite, mas o senhor paga a conta.
- Não se preocupe. Já está incluída no preço da consulta.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A estrada como de costume estava deserta naquela madrugada. Os três amigos, cada qual mais embriagado que o outro, ziguezagueavam sobre o asfalto áspero que cortava a pequena cidade de Pantano Grande ao meio. O lugar, no coração do Rio Grande era pacato, e não tinha mais que dez mil habitantes. Os amigos, Cleiton, Eduardo e Jeferson, voltavam para casa depois da festa num clube da cidade...

Do centro até os sítios onde moravam, pouco mais de seis quilômetros, e mesmo bêbados eles voltavam a pé para casa. Cleiton abriu seu telefone celular e verificou que já passava das cinco. Eduardo parou sobre o acostamento, abriu seu zíper e pôs-se a urinar toda a cerveja que bebera na festa. Os outros dois o seguiram, e enquanto encharcavam o solo com o líquido ácido e quente que saia de seus pênis, cantarolavam aos gritos uma canção desafinada. Nem mesmos os dois olhos de luzes que despontava antes da curva inibiram o grupo, e quando o carro passou por eles, se viraram para a estrada apontando seus membros em direção do veículo. O carro passou sem percebê-los.

O trio, mais alegre que o de costume, seguiu seu caminho. Com os pés cansados, tiraram os sapatos, e caminhavam sentindo o sereno da primavera. A cantoria continuava. Apenas a canção se alterou, e logo no início de uma curva que abria as cortinas para o cemitério municipal, ao invés das baladas populares começaram a entoar a ave-maria e o pai nosso. Cleosvaldo, o vigia, escondeu-se atrás dos muros jogando-lhe pedras, mas o álcool impedia que os amigos temessem ate mesmo os mortos. Estavam na metade do caminho para casa.

A propriedade dos pais de Jeferson era um pouco antes da dos irmãos Eduardo e Cleiton. – É to quase chegando! Disse Jeferson de forma atrapalhada e gaguejante. Antes da porteira que dava acesso para o sítio, cruzaram pelo milharal. Era um atalho. As espigas estavam verdes. Tenras e doces. – Ajuda a diminuir o álcool no sangue. Dizia Eduardo ao desfolhar e devorar uma espiga inteira enquanto cruzava pela plantação.

- Não sei por que, mas detesto milharal. Disse Jeferson.
- É parece que tem sempre alguém nos espionando. Respondeu cleiton.
- Essas folhas, se roçando... Chega até mesmo dar arrepios. E você, Duda? Duda? Duda...

Eduardo não respondeu a nenhum deles. – Deixa de ser idiota moleque. Pensa que vai nos assustar. Os dois seguiram pelo milharal. Um vento que começou a soprar mais forte dava a impressão que dezenas de pessoas circulavam pela plantação. – O idiota do Duda, pensou que ia nos assustar... Não é Cleiton? Cleiton? Cleiton...

Cleiton também havia desparecido? Ou seria apenas uma brincadeira de mau gosto. Jeferson bem conhecia os dois, e preferiu continuar caminhando no mesmo passo, do que servir de piada no dia seguinte. “Droga de plantação! Parece que tem sempre alguém nos seguindo!” murmurava em vos baixa. Seus olhos estalados olhavam em todas direções, pois queria estar prevenido quanto alguma aparição abrupta de seus amigos. Não queria deixar-se levar pelo susto. Com as mãos abria caminho entre as folhagens da planta. O milharal estava quase vencido.

Mas ele não conseguia observar a tudo, e tropeçou em algo. Na verdade foi levado a tropeçar, pois antes de seu corpo se espatifar no chão, percebeu que uma espécie de laço, com três pesos nas pontas o desequilibrara. Nem bem caiu uma rede caiu sobre seu corpo, lhe causando pequenos choques elétricos. Com os olhos enfumaçados, e a consciência lhe fugindo sentiu seu corpo sendo arrastado pela terra fofa.

Jeferson, mesmo com a visão turva movimentou sua cabeça para tentar ver quem o havia capturado. Pode ver apenas um par de pés descalços. Não eram pés humanos. Eram pés enormes, esverdeados, e escamosos... Dos calcanhares duas grandes unhas encurvadas se assemelhavam com ferrões. Aquele par de pés levava seu dono - que devia ter mais de dois metros de altura, se a julgar pelo tamanho dos pés – a passos lentos e torturantes em direção de uma luz forte.


Jeferson voltou então a rezar, como fizera a pouco, quando cruzara pelo cemitério. Mas dessa vez o cântico estava afinado, e bem mais sincero. Porém talvez a brincadeira anterior tenha irritado ao poder celeste, e sua oração não foi ouvida.





sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A batalha dos miseráveis contra os que não querem morrer...

Cleucimar. Mas melhor chamá-lo de Doutor. Era desta forma que os miseráveis o viam, embora, fosse ele da mesma carne, da do mesmo ralo social que seus admiradores. Mas, mesmo nos piores dos submundos, líderes surgem, e ao passo que aumentam seus seguidores, as coisas começam a mudar. O ano era o de 2.200, e São Paulo não mais era uma metrópole, e sim uma grande lixeira, repleta de miseráveis, e sua selva de pedra, deteriorada, e coberta de liquens e musgos. Apenas á escória da nova sociedade conseguia habitar aquele local fétido. Não fazia muito o mundo mudara. Os homens não morriam, graças aos avanços nas pesquisas com células-tronco que podiam renovar a qualquer momento a parte do corpo que fosse. Para morrer, só mesmo um desastre, pois tudo poderia ser regenerado. Inclusive a engenhosa máquina chamada cérebro que foi mapeada por completa por volta de 2.050. Obviamente tais recursos avançados estavam ao alcance apenas de uma minoria privilegiada financeiramente, que foi isolando-se em sociedade avançadas, autônomas, e distante dos miseráveis, que já não tinham mais emprego, dinheiro, cidadania... Não demorou muito para parlamentares, logicamente integrantes da nova humanidade, classificar os miseráveis como selvagens, relegados a própria sorte, sem infra-estrutura alguma. Os novos humanos, formados pela face mais egoísta do ser humano, permitiam ao seu convívio apenas quem lhes fosse conveniente, e que não pudessem ser substituídos por máquinas com inteligência artificial. Assim nessa nova sociedade, nada se renovava, a não ser a tecnologia. Em cinco anos uma lei foi imposta proibindo a procriação entre os novos homens, pois não era mais necessária uma nova vida para manter a linhagem, já que estes eram imortais. No entanto, uma preocupação passou a afligir diuturnamente estes notáveis: A proliferação dos miseráveis era gigantesca, e para esta nova raça nobre, o planeta não conceberia duas espécies humanas, pois mesmo com um maior cuidado ambiental, nos territórios de população miserável eram estratosféricos dos números de dióxidos de carbonos lançados ao ar. A solução, sinceramente, não me trouxe surpresas para uma linhagem que outrora conheceu Alexandre, Césares, Calígula, Hitler, Bush, Saddam, entre tantos outros mestres da guerra... Exterminar os miseráveis. Esta era a solução mais apropriada, tendo inclusive o respaldo do conselho de segurança da ONU, ocupada por diplomatas imortais, e vitalícios em seus cargos; Neste contexto, Nasceu o Doutor, que aos seus quase trinta anos, mas que aparentava uns cinqüenta. Fato comum entre os miseráveis. Nunca poderemos saber como nasce uma liderança, mas o fato, que uma palavra aqui, outra ali, ao se redor uma centena de miseráveis compartilhava mesma idéia, e mais por um instinto de sobrevivência, que por disputa de poder, o extermínio promovido pela nova humanidade não lhes era simpática. 07 de agosto, de 2.200, às 19h01min, de uma noite cinzenta e ácida nos subúrbios dos muros da Nova São Paulo, habitada por pouco mais de trezentos mil privilegiados, com as mais modernas tecnologias de bem viver. Os guardas, não temiam perigo algum, e seus serviços basicamente traduziam-se em expulsar dos arredores os miseráveis que tentavam se aproximar em busca de alimentos. Portanto, no alto da arrogância de seus líderes jamais podiam supor uma rebelião coordenada, por seres insignificantes e incapazes de pensar; - Atacar! Vociferou o Doutor. As centenas que o seguiam partiram num ataque feroz, com antigas armas a base de pólvora, e não deram tempo de se carregarem os lazeres dos guardas. Furados a bala e chumbo, e com as cabeças cortadas a facão, a nova humanidade se mostrava frágil, e o Doutor iniciava guerra que sequer ele sabia o tamanho das proporções que tomariam. Em seus olhos viam apenas as imagens conturbadas de seus companheiros miseráveis sendo exterminados pelo gás mortal jogado pelos que não morriam. Cada grito de dor, das cólicas que os infernizavam antes da morte, era o estímulo para os golpes empregados pelo Doutor, que tinha já naquele momento o corpo coberto pelo vermelho do sangue... Como animais os tratavam... E como animais acuados aquele bando de miseráveis agia. Não sossegariam até que o último imortal sucumbisse à morte, e enfim descobrisse que por mais inteligente que se seja ninguém escapa do juízo final... Ninguém...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Deputado

Num futuro não muito distante, câmeras fotográficas e filmadoras foram abolidas. Caíram em desuso, tornando-se obsoletas, desde o surgimento de um HD capaz de receber qualquer informação via Bluetooth processado pelo cérebro, inclusive a imagens. Assim, bastava visualizar algo, que a lembrança vivenciada era instantaneamente enviada para um servidor, via rede. Cada cidadão passou a ter seu sistema de gravação de vivência pessoal. Menos os puritanos, por ideologia, e os subumanos, por condições miseráveis. Já na alta sociedade composta por geeks e nerd's o artefato era revolucionário, e sem demora se espalhou por toda a sociedade. O deputado Carlos Sarney foi um dos primeiros políticos a aderir. Queria provar que para a condição na vida pública era fundamental, até mesmo obrigatório compartilhar sua vida, principalmente para um provável candidato a presidência do Brasil. Na verdade, seu discurso não passava de um engodo a pseudo-analistas que acreditavam naquele discurso de transparência, pois conhecia muito bem o deputado o novo sistema, e gravar não necessariamente significava arquivar, e logicamente grande parte das conversas e visualizações eram deletadas, antes de serem carregadas em seu perfil no Orkut. Desconfiado, ele também carregava sempre um bloqueador, que causava interferência, muito útil para reuniões secretas em seu gabinete. No entanto, o jovem político viu-se encurralado, após uma situação inesperada. Homem casado e de conduta ilibada, por descuido esqueceu-se de desligar o modo REC. enquanto se esbaldava com uma linda prostituta da zona sul, num destes motéis cinco estrelas. Sua situação agravou-se, quando o sadomasoquismo extrapolou seus limites, e suas mãos fortes golpearam desproporcionalmente a mulher, que caiu morta sobre a cama de lençóis finos. Ele tinha menos que vinte minutos para chegar a casa, tempo suficiente para deletar as imagens do servidor, antes que elas fossem carregadas automaticamente para suas redes sociais. Daí pra frente, os telejornais se fartariam em matérias. Ele conhecia bem os abutres que comandavam verdadeiramente a nação. Brasília cada dia mais conturbada e de trânsito nervoso, se igualava a São Paulo no início do século, e os números de seu relógio decresciam vertiginosamente. Encurralado, e sem mais tempo, enquanto os vídeos daquele fatídico dia carregavam as páginas de seu Orkut, uma velha peça de coleção adquirida pela manhã, soou um estampido há muito esquecido. Na era de armas não letais, e laser's, a Magnum sete meia cinco fez-lhe um favor, estourando seus miolos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Fim.

Quando o televisor saiu do ar, jamais imaginávamos o tamanho do problema que recairia sobre este planeta e seus moradores. Sem sinal de telefone, ou de internet. Ou seja, tudo que dependesse de nossos modernos satélites estavam em pane, e o que deixava qualquer cidadão mais apavorado, era a falta de comunicação, e a ignorância do que acontecia. Mesmo que se nossos governantes tivessem tentado alguma forma de nos informar á calamidade que se debruçava sobre nós, não conseguiriam. Foram dias difíceis até o nosso fim. Sim, estamos todos mortos, inclusive o narrador que voz fala. Fui apenas indicado por um arcanjo para que deixasse esta mensagem, pois havia astronautas em nossa estação espacial, e quem sabe, haverá uma esperança na continuidade dos homens. Quando o sol desapareceu, imaginávamos algum problema com a grandiosa estrela. Enfim ela teria se cansado dos planetas que gravitam em sua órbita. Mas não era bem o que acontecia. Se não estou enganado, foram cerca de três semanas sem que a luz do dia radiasse o hemisfério sul. Depois dos primeiros dias, o temor passou a tomar conta de cada um ser vivente e pensante. O silêncio da Nasa era encarado com mau sinal por leigos como eu que esperavam trancados em suas casas por alguma luz sobre o que estava acontecendo no espaço sideral. Mas nenhuma palavra foi pronunciada. Na terra, tomados pelo desespero, saques, anarquia social, e tantos outros problemas faziam com que as forças militares tomassem as ruas. Mas aqui no Brasil, o exército não foi suficiente para controlar milhões de pessoas acuadas como ratos em sua toca. Eu tentei manter a calma, embora estivesse difícil de controlar. Quando os três ônibus espaciais americanos decolaram ao espaço, e concomitantemente coincidiu com o desaparecimento do presidente Barack Obama e sua família, ninguém mais conseguiu controlar os instintos animais reprimidos em algum lugar de sua mente. Do suicídio, individual ou coletivo, das pregações religiosas, e das inquisições em busca de culpados, das oferendas que remetiam a nossos tempos mais remotos... O planeta transformara-se num verdadeiro inferno. Por isso a pequena Pantano Grande não diferia do resto do mundo. Estavam todos loucos. Por dias fiquei com minha família, trancado dentro de casa e quando ela deixou de ser segura, entramos na camionete se seguimos para o campo. Até este momento meu coração cristão, tomado pelo instinto de sobrevivência levara-me a matar mais de cinqüenta lunáticos. As balas da pistola 38 escassearam com rapidez. Andamos por quase um dia inteiro. Apenas por estradas vicinais, e só paramos quando o combustível terminou. Estávamos longe de tudo. As crianças choravam, e minha esposa caía em desespero. Estava difícil manter a situação. Exaustos dormimos. Fui o primeiro a acordar quando uma das teias da criatura monstruosa atingiu o pólo sul, dizimando em poucos segundos cinco por cento da terra. O desequilíbrio alterou toda a gravidade, e a camionete flutuou por primeiro e em seguida foi nossa vez. Ainda deu tempo de cairmos novamente no chão, até que as patas da criatura, com um diâmetro de área equivalente aos estados do sul e do sudoeste do Brasil nos amassaram como se fossemos bactérias. Sempre pensava na grandiosidade do universo. Fazia parte de minha doutrina como professor de filosofia. Noutras buscava entender a arrogância humana frente a algo tão misterioso, já que sempre soube que não passávamos de uma pequena engrenagem num sistema monumental. Porém jamais poderia imaginar a existência de aracnídeo como aquele. Perdida no espaço, o primeiro ponto para ele se afirmar tinha de ser justamente nosso planeta. Talvez o monstro sequer soubesse o mal que nos cometia, mas a terra literalmente explodia a cada movimento seu. Talvez ele até tenha conseguido afirmar-se para buscar impulsão e voltar para de onde viera. Infelizmente não tenho tal resposta. Apenas deixo esta mensagem para caso tenha havido sobreviventes, para que no futuro tomem muito cuidado com aranhas espaciais.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

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Título: O cachorro dos Kovalski & Outras Histórias
Páginas: 31
Gênero: Contos/divrsos

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Chip do orgasmo


O professor Licurgo estava empenhado a terminar seu novo invento. Algo que revolucionaria os relacionamentos. Era a solução perfeita para as mulheres que passavam por uma vida inteira sem sentir o prazer do sexo, e um alivio para homens que já não aguentavam dissimulações e falsos gemidos na hora do “amor”. Foram quase uma década de pesquisa. O trabalho fora encomendado por uma secreta sociedade feminina, cansada do desprezo e do egoísmo machista nos momentos mais íntimos. “Eureka”! Bradou o velho professor, e estava pronto seu invento, o Chip do Orgasmo, o simplesmente PSC-O, como denominava seu projeto.

Licurgo admirava sua invenção, mas logo veio uma necessidade. Não bastava os dados virtuais, e assim gritou pelo nome de Claudete. Era uma moça formosa, que há uns dois anos trabalhava como sua secretária. As más línguas falavam, que a moça fora contratada pelo seu rosto bonito e pelo rebolado das ancas largas, que propriamente por sua inteligência. O professor pôs então o Chip na mulher, e para sua surpresa viu a pele de Claudete corar, e sem demora ela se contorcia como uma cobra, jogando-se nua sobre um sofá no canto direito da sala. A moça gritava, urrava, gemia, proferia palavras tão obscenas, que o professor jamais ousou a falar. Ela ficou por mais de hora naquele extase, até sentir seu corpo desfalecer, saciada de seu desejo a tanto tempo reprimido. “Funciona, mas tem um defeito”. Pensou o professor, que retirou o Chip e voltou ao laboratório.

O Cientista estava admirado pelo resultado, mas uma coisa o incomodava. Era tal o estado de prazer de Claudete que ela esquecera do mundo, inclusive da companhia, afinal vocês não acham que o professor pôs o Chip na secretária, pelo bem da ciência. Ele ficou ensandecido, por todo aquele tempo ele esperava pela oportunidade de “tirar uma casquinha”. No entanto ele não teve muito tempo para corrigir os problemas, pois o laboratório foi invadido por uma dezena de homens mascarados, usando toucas com um brasão secreto. Na verdade pertenciam a uma sociedade masculina, que ao saber dos avanços do professor decidiram acabar com seus estudos, afinal, o PSC-O em larga escala seria os esquecimento dos homens por completo, que perderiam qualquer utilidade, e ficariam relegados ao ostracismo. Temiam que as mulheres tendo a opção de escolher entre o certo e o duvidoso, logo optariam pela primeira opção. Vendo as chamas consumirem o laboratório o professor Licurgo chorava qual criança, pensando nos anos de dedicação, e a oportunidade que perdera com a Claudete.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Mensagem do Futuro


Olá. Sei que poucos acreditarão nas próximas linhas. Mas faço isto por uma dádiva a que me foi feita. E também pela esperança de que os humanos não sejam extintos. Falo dum futuro não muito distante. Duma guerra, talvez a última, pois restam poucos sobreviventes entre nossa espécie. Se no passado nossos cientistas foram céticos ao futuro sombrio que se aproximava, temo que esta mensagem seja ridicularizada, ou desconsiderada pelos homens, mas peço que por mais estranho que sejam os fatos, acreditem, é a cruel realidade. Só com a consciência humana será possível salvar nossa raça, seus filhos, seus netos... Vocês precisam passar adiante esta mensagem, e iniciar a paz real e concreta, a paz com a mãe terra, pois seus outros filhos já cochichavam a rebelião contra seus irmãos mais ferozes: os homens.

Os primeiros sinais vieram no início do século vinte um. A natureza explodia sua fúria em furacões, tempestades, enchentes... Muita gente começou a morrer. Para muitos religiosos era o prenuncio do apocalipse, para cientistas fenômenos climáticos. Ambos não estavam errados. A natureza, duma forma ou outra tem de se manifestar. De início o clima, agindo como anticorpos numa estrutura de vida doente. Os mais radicais nos comparariam ao câncer, e embora relute com tal comparação, não existem muitas diferenças. Mas enchentes e tornados ainda não eram suficientes para dizimar a doença que afligia a mãe terra, e mesmo ceifadas milhares de vida, o planeta continuava doente.

O pior ainda estava por vir. O vento levava o sussurro da conspiração. E aí, nós – humanos – começamos a viver o grande terror, o qual jamais se pensava ser possível. Sei que parece algo sensacionalista, uma mera ficção, mas pensem um pouco na natureza. Equilíbrio é a palavra mais exata quando nos referirmos a ela. Sempre foi assim, quanto maior o equilíbrio, mais puro o ar a invadir nossos pulmões. Reflitam aí no presente – pois estou no futuro – se há equilíbrio no mundo em que vivem. A sua cidade, o seu país, você... O que vocês estão fazendo pelo equilíbrio? Provavelmente nada. Sei que houveram tentativas, mas esparsas, pois ao contrário não seria necessária, tal mensagem.

Enfim, escrevo quando já sou o ultimo da minha tropa. Mil homens dizimados por macacos amazônicos. Mas poderia ser outro animal. Para que vocês entendam melhor, pensem num formigueiro. Muitas são as ameaças a ele. No entanto há formigas que fazem valer sua força através do tamanho de seu bando, unidas para espantarem qualquer predador. Agora pense seu planeta. Cada raça com sua cadeia alimentar, com um ciclo natural de evolução das espécies. Porém neste planeta, nasceu um predador imbatível, e com tamanha sede de dominação. Sim, os humanos, os maiores predadores da terra, e os responsáveis pela extinção de tantas espécies.

Não sei por qual maneira, mas as espécies um dia se comunicaram entre si. Talvez mais uma artimanha da natureza, acostumada a livrar-se de inquilinos incômodos. E quando os homens menos esperavam, as presas passaram a atacar seu maior inimigo. Nenhum exército foi capaz de vencer as “tropas”, e nem mesmo uma grande aliança entre as nações garantiu a vitória da humanidade. Já era tarde demais. Os animais estavam em cada cidade, em cada aldeia... Talvez tivessem levado anos para confabular tão perfeito ataque. A reação dos homens veio com suas armas e soldados, em número insuficiente para combater tamanho exército que usava suas forças, e suas presas cortantes, matando um a um, sem poupar qualquer vida. A “raiva generalizada” não poupou um continente sequer, e hoje não resta mais nada aos humanos a não ser fugir... E continuar fugindo, pois estamos sendo caçados, aniquilados, exterminados...

Por favor, acreditem. Se vocês não agirem rápido, e mudarem a maneira de verem nosso planeta, seus descendentes serão exterminados. Hoje – no futuro – a terra não é mais dominada por nós, e temo que existam poucos humanos, apenas o suficiente para manter o equilíbrio.

por, Douglas Eralldo