13 de novembro de 2.499. Em Porto Alegre, está calor, mesmo ainda sendo primavera, a estação das flores e dos coloridos ipês que transforma o parque da redenção numa tela valiosa. No complexo residencial Alpha, Jason Prates é despertado pelo som suave em sua mente. São 06:00 da manhã. A janela virtual na parede de vidro se descerra permitindo a luminosidade da manhã penetrar em sua casa. Ele está feliz. Abre seus olhos, espreguiça-se, e toca de leve em J-35. Ela esta inerte sobre a cama. Nua. É um robô, tão perfeita, que não soubesse ele se tratar de uma máquina, não acreditaria. Mesmo desligada, há pulsação. Há calor. Foi uma noite inebriante...
Em tempos remotos ele seria um pervertido. Ter uma máquina apenas para o prazer sexual – se bem que J-35 era um modelo bem mais avançado e que cuidava de todos os afazeres domésticos, fato pelo qual alguns saudosistas a chamavam de Amélia – porém não lhe era uma excentricidade, ou tara naqueles modernos tempos, e sim uma necessidade. Há muito tempo, desde, que as mulheres descobriram que o homem não era fundamental para a procriação, e passaram a preferir outras mulheres, havia poucas alternativas. As fêmeas praticamente em totalidade aderiram ao lesbianismo. Se bem que grande parte dos homens quando isto ocorreu, eram homossexuais. Assim, como Jason, restou cerca de um terço da população de homens, uma grande fatia de mercado para os fabricantes da J-35.
Enquanto ele se dirigia ao banheiro, ordenou através de seu chip ligado as linhas neurais de seu cérebro com comando via wireless para que o integralizador de alimentos providenciasse seu café da manhã. Escolheu torradas, e chá verde. A máquina começou prontamente a ler os códigos binários arquivados em sua unidade de processamento, e iniciou a leitura e integralização da solicitação de Jason. Enquanto isso ele escovava os dentes, sentava no vaso e assistia na tela de cristal líquido que compunha o box, as informações dos jornais da manhã. Falavam de algum distúrbio em São Paulo, que desde a sua decadência e da invasão das águas era habitada por deportados.
Lavou-se, e quando se sentou à mesa a torrada e o chá emanando uma fumaça quente o aguardavam. Com o desjejum feito, vestiu-se. O dia seria de agenda cheia. Haveria uma reunião em Roma. Dirigiu-se até a cápsula de aerotransporte acoplada à parede de seu apartamento, e acionou a partida. Enquanto a esfera de cristal e circuitos elétricos viajava cortando o ar, no piloto automático, no menu sensível ao toque, ele selecionou a opção refletir, e observou como Narciso, seu rosto no espelho. “Nossa, como sou bonito!” pensou. Na verdade, não estava nada mal. A pele lisa, de cor clara, seus olhos limpos, sem sinais de cansaço, e sua vitalidade, embora não fossem nada anormal para um homem de meia idade, ele estava acima da média, e tinha certeza que no dia de seus 70 anos, bons negócios seriam concluídos.
A esfera acoplou no andar de seu próprio escritório. – Bom dia, Viviane. – A reunião com os italianos foi adiantada para às 09:00, senhor Prates. Ele foi surpreendido pela secretária eletrônica, um computador pessoal bípede. – Tenho que me apressar então. E saiu imediatamente para o andar onde ficava a sala de viagens. Sua empresa havia gasto uma verdadeira fortuna para a instalação das T.Mach’s. Cinco equipamentos para tele-transporte de dados brutos e biológicos. A invenção do século segundo a Time de 2.489. Na verdade a T.Mach’s digitalizava as informações escaneando o que dentro dela estivesse, e depois as repassava paras as T.mach.d que liam as informações, e as reproduziam fielmente. Todo o processo de scanner, transmissão de dados, e recomposição levava cerca de uma hora, portanto Jason Estava atrasado.
Para que o sistema funcionasse, corporações ou órgãos públicos adquiriam as T.mach’s, já as principais cidades do mundo construíram terminais com as T.Mach.d, e assim as viagens internacionais foram facilitadas. Na época da criação do sistema, e após cinco anos de uso com total sucesso, e com a inexistência das variantes que no início causaram alguns acidentes, o Tele-transporte substituiu a aviação civil, e finalizou de vez com os acidentes aéreos.
Depois de vinte minutos a máquina leu todas as informações necessárias, e enviou os dados para a estação de Roma, que prontamente na cabine 101 iniciou cópia dos dados recebidos. Na verdade Jason não viajou. Suas informações numéricas, apenas chegaram á Roma. Uma cópia exata do corpo que controlava o Avatar ou clone como diziam alguns, de sua segura cabine em Porto Alegre. Pela rede transmissões nervosas de Jason Viam o que seu Avatar em Roma enxergava. O Avatar era totalmente submetido aos comandos do arquivo original, graças a um código inserido automaticamente nas informações transmitidas para as máquinas de recomposição de dados. Jason não se atrasou para o encontro. E talvez por causa de seu pensamento positivo, efetuou uma venda considerável. Terminada a sua missão o Avatar de Jason dirigiu-se uma T.recycler, e se autodeletou. Jason era muito pragmático e, raras vezes levou suas cópias para visitações e turismo.
Terminada a missão, voltou ao seu escritório, onde conectou o cabo USB ao seu banco de arquivos, e arquivou os dados em vídeos da viagem. – ÀS 12:00 horas o senhor deve estar na clínica do Dr. Morethi lembrou-lhe a secretária. No horário marcado ele estava lá.
- Bom dia doutor.
- Como estamos hoje, meu caro amigo.
- Um pouco cansado por causa de uma viagem à Roma.
- Entendo.
- Foi uma boa reunião.
- Negócio lucrativo então, se bem lhe conheço.
- Digamos que não foi tão mal.
- Continua modesto e chorão, mas vamos a nossa consulta. Com tem se sentido?
- Tudo normal.
- Então faremos os exames de rotinas. Por favor, encoste o dedo. Jason pôs seu dedo num nano-agulha que coletou seu DNA e repassou as informações instantaneamente para o desktop do médico.
- É sua saúde ainda está forte. Pelo que vejo teremos pouco a fazer. A não ser que você queira algo mais incisivo.
- Estou pelo senhor.
- Desta vez trocaremos poucos órgãos. O coração deixaremos para o próximo triênio. Acho que apenas o pulmão merece uma reposição, talvez o pâncreas... Pelo visto tem visitado alguns lugares poluídos... e Comendo o que não deve.
- O senhor está sempre certo.
- É mas não porque podemos trocar nossos órgãos e tecidos que se deve exagerar, meu caro.
- Eu sei...
- Bem, podemos fazer estas reposições hoje pela tarde, á noite, estará liberado.
- Hum! Pode ser me preparei para isto...
- Então vou repassar as ordens para os enfermeiros.
- Doutor...
- Sim?
- Se não for abuso, posso trocar também o fígado... É que irei a algumas festas neste final de semana... E sabe como sou exagerado, às vezes. Um fígado novo é mais forte...
- Pois bem, falamos isto também... Continua o mesmo levado de sempre.
Os dois riram.
- Bem, que tal almoçarmos, enquanto a equipe prepara o material... Sempre leva um tempinho até os órgãos serem recriados.
- Aceito o convite, mas o senhor paga a conta.
- Não se preocupe. Já está incluída no preço da consulta.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Numa noite de Sexta-feira Santa
Talvez vocês não conheçam o Passo Grande. Na verdade espero que não conheçam, aliás, lhes aconselho a não conhecer. Quem sabe se eu contar como ele é e o que acontece em suas águas corredeiras, vocês não teimem em ir até lá. Não é fácil chegar até ele. Fica obscuro entre bosques nativos no interior de Encruzilhada do Sul. O caminho mais fácil é que segue por Pantano Grande, entrar à esquerda no Vilarejo dos Gonçalves...
A paisagem do caminho é uma mistura de sentimentos. Assim como o medo e a adrenalina pela aventura se misturam, a aridez de campos secos mistura-se a pequenos bosques e vegetação de arbustos, graças a campos abandonados. Pouca gente vive por aquelas bandas. Há mais pinheiros pelo caminho, que boas almas a viver da agropecuária. E quando encontramos algum ser vivo, seus olhos são cabisbaixos e tristes. Na face carregam os sinais dos tempos. Não há gente jovem por lá. Foram todos embora.
Para chegar ao nosso destino, ainda passamos por um vilarejo e comemos poeira na estrada mal conservada. O capim e os galhos avançam pelo caminho dos que tem coragem de trafegar em lugares tão abandonados. Sabemos quando chegamos, quando entre aroeiras, vassouras brancas e vermelhas, uma massa de concreto corta o ar. Aí basta entrar num acesso escondido pelo capim à esquerda, e descermos lentamente até as margens do arroio.
A areia parece até ser de praia. Mas não há ondas. A água é dum tom verde-esmeralda e o leito do pequeno riacho tem corredeiras arredias e pedras espalhadas por todos os cantos. As margens são rodeadas por vegetação nativa. Corticeiras vivem por toda sua extensão. Há uns doze metros de altura fica a ponte de concreto, ligando dois pontos no meio do nada. Apenas ela é mais imponente que as árvores. Era neste lugar que por causa da minha indefinição passei uma noite alucinante de sexta-feira santa.
Bem, eu sou um desses sujeitos que faz tudo, e está presente em tudo. Não sei se me compreendem, mas há em meu íntimo um botão instalado que me impede de dizer não. É como se esta palavra não existisse em meu vocabulário. Acreditem, passei alguns apertos por causa disso. – Vamos pescar hoje? – Mas hoje é... – capaz isto é besteira dos mais velhos. – Mas... – Está bem vamos! E foi assim que entrei numa fria
Sexta-feira santa não punha mais medo nas pessoas. Principalmente nos jovens. Tem até os que fazem festa, vão a bailes. Cruz credo. Isto não ocorria nos tempos de meu pai. Talvez pescar não fosse maior pecado que pescar, e assim pela incapacidade de dizer não, e pela inocência de um jovem, parti naquele fusca. Éramos cinco. Mal tinha espaço para os apetrechos necessários para acamparmos. Na partida minha mãe, ainda tentou demover-me da empreitada. Mas era tarde. Não podia dizer não entre os outros guris.
Distraído por meus próprios medos, quando dei por mim estava cercado por aquela paisagem deserta. As árvores dançavam com o vento leve que se precipitava. Não gosto de mato. Mas estava no meio de um. Olhava para a ponte. Para ás árvores. Tinha sempre a impressão que algo desagradável surgiria da mata. Seus sons, suas sombras tudo me irritava. Mas me mantinha em silêncio. Já havia sido rotulado como medroso da turma, e queria desfazer aquela impressão.
Juntamos lenha para preparar uma fogueira. Com a tarrafa pegamos as iscas. Pobres lambaris. Até que davam uma boa fritada, mas para nós serviam apenas para habitarem nossos anzóis de aço. Largamos as linhas na água. Botamos as redes. A bóias-loucas. Estava tudo preparado, e quando a noite caía sobre nós, o fogo estava alto e o arroz e a lingüiça ferviam na panela de ferro. Bebíamos e contávamos piadas aguardando o jantar.
Dentre os cinco quatro já estavam embriagados antes das dez. Eu, o que menos bebia ainda conseguia discernir melhor. Tentei alertar que o vento aumentava, e que a lua cheia que por um momento iluminara nossas almas fora encoberta por nuvens negras e pesadas. Ao longe trovões podiam ser ouvidos, e não demorou para que uma chuva torrencial caísse sobre nós.
Neste momento ainda estava calmo. Exilados em nossas barracas de lona preta, eu era o único ainda acordado. Relaxava aos sons dos pingos estalando no plástico. Não há som mais calmante que esse. Um atrás do outro, como se regessem uma sinfonia. Fechava os olhos e fabricava imagens alegres. Então a noite começou a mudar de rumos.
Um ronco de motor se aproximava. “Quem Diabos, anda numa noite dessas por este lugar?” Indaguei mentalmente. Tentei acordar meus companheiros. – É só alguém indo pra casa. Disse um deles, e voltou a dormir. O ronco estava mais próximo. Era um ronco agudo. Forte. Andava lento. De repente, quando o ouvi próximo a ponte, o motor silenciou. Arrastei-me pela barraca, e pela fresta pude ver o vulto sobre a ponte.
Estava escuro e a chuva embaçava a minha visão. Mas jamais esqueci a silueta forte do homem sobre a moto, e o farol que mirava sobre nós e ofuscava meus olhos. Senti medo. Muito medo. Sabe quando uma presença te causa terror. Assim ocorria comigo. O motoqueiro nada fez, mas apenas sua presença me afligia. Seu repouso sobre a ponte nos mirando sua paciência e sua omissão com os fatos que sucederam sua chegada me atormentam.
Os pesadelos daquela noite me acompanham a cada noite, que relembro o fedor pútrido que invadiu minhas narinas. Era como se queimassem mil chifres de gado na beira daquele riacho. Ainda ofuscado pela lanterna da motocicleta, apenas ouvia o quebrar das águas contra as pedras. Elas serpenteavam as curvas de seu leito mais veloz que o habitual. Era uma enxurrada. Um manto de morte feito por água e peixes carnívoros que desciam rio abaixo. Vi alguns desses animais se regozijando com as carnes de meus amigos.
Quando as águas me sugaram para seu interior vi meus olhos serem cegados pelas águas escuras. Girava como as hélices de um navio num verdadeiro redemoinho. Era como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. Troncos e galhos tiravam raspão, arranhando meu corpo e distribuindo meu sangue. Sangue este que alertava o estranho cardume. Não tinha relatos de peixes carnívoros na região, mas naquela noite eu os pude ver. Eram enormes. Anormais. Seus olhos luminosos cor de fogo transformavam a solidão do mundo submerso do riacho numa grande metrópole com suas lâmpadas acesas.
Quando uma boca com dentes mais afiados que navalha penetrou minhas carnes, gritei medonhamente. A água invadiu minha boca e meus pulmões, silenciando a minha expressão de dor. Não podia mais gritar, e as mordidas aconteciam sucessivamente. Mentalmente orei um Pai Nosso, pois apenas a providência divina poderia salvar-me. Pedi perdão por meus pecados, e jurei nunca mais desrespeitar a sexta-feira santa. Minha mãe sempre dizia que neste dia “o bicho ruim” andava solto. Lembrei de suas palavras, e adormeci sem mais nenhuma consciência, e com vela da vida deixando de queimar seu pavio em minha alma.
Quando acordei já estava nesta cadeira de rodas. Sem minhas pernas. Sem um dos meus braços. Meu rosto está desfigurado, um dos olhos não existe mais. Apenas as lembranças daquela noite continuam perfeitas.
A paisagem do caminho é uma mistura de sentimentos. Assim como o medo e a adrenalina pela aventura se misturam, a aridez de campos secos mistura-se a pequenos bosques e vegetação de arbustos, graças a campos abandonados. Pouca gente vive por aquelas bandas. Há mais pinheiros pelo caminho, que boas almas a viver da agropecuária. E quando encontramos algum ser vivo, seus olhos são cabisbaixos e tristes. Na face carregam os sinais dos tempos. Não há gente jovem por lá. Foram todos embora.
Para chegar ao nosso destino, ainda passamos por um vilarejo e comemos poeira na estrada mal conservada. O capim e os galhos avançam pelo caminho dos que tem coragem de trafegar em lugares tão abandonados. Sabemos quando chegamos, quando entre aroeiras, vassouras brancas e vermelhas, uma massa de concreto corta o ar. Aí basta entrar num acesso escondido pelo capim à esquerda, e descermos lentamente até as margens do arroio.
A areia parece até ser de praia. Mas não há ondas. A água é dum tom verde-esmeralda e o leito do pequeno riacho tem corredeiras arredias e pedras espalhadas por todos os cantos. As margens são rodeadas por vegetação nativa. Corticeiras vivem por toda sua extensão. Há uns doze metros de altura fica a ponte de concreto, ligando dois pontos no meio do nada. Apenas ela é mais imponente que as árvores. Era neste lugar que por causa da minha indefinição passei uma noite alucinante de sexta-feira santa.
Bem, eu sou um desses sujeitos que faz tudo, e está presente em tudo. Não sei se me compreendem, mas há em meu íntimo um botão instalado que me impede de dizer não. É como se esta palavra não existisse em meu vocabulário. Acreditem, passei alguns apertos por causa disso. – Vamos pescar hoje? – Mas hoje é... – capaz isto é besteira dos mais velhos. – Mas... – Está bem vamos! E foi assim que entrei numa fria
Sexta-feira santa não punha mais medo nas pessoas. Principalmente nos jovens. Tem até os que fazem festa, vão a bailes. Cruz credo. Isto não ocorria nos tempos de meu pai. Talvez pescar não fosse maior pecado que pescar, e assim pela incapacidade de dizer não, e pela inocência de um jovem, parti naquele fusca. Éramos cinco. Mal tinha espaço para os apetrechos necessários para acamparmos. Na partida minha mãe, ainda tentou demover-me da empreitada. Mas era tarde. Não podia dizer não entre os outros guris.
Distraído por meus próprios medos, quando dei por mim estava cercado por aquela paisagem deserta. As árvores dançavam com o vento leve que se precipitava. Não gosto de mato. Mas estava no meio de um. Olhava para a ponte. Para ás árvores. Tinha sempre a impressão que algo desagradável surgiria da mata. Seus sons, suas sombras tudo me irritava. Mas me mantinha em silêncio. Já havia sido rotulado como medroso da turma, e queria desfazer aquela impressão.
Juntamos lenha para preparar uma fogueira. Com a tarrafa pegamos as iscas. Pobres lambaris. Até que davam uma boa fritada, mas para nós serviam apenas para habitarem nossos anzóis de aço. Largamos as linhas na água. Botamos as redes. A bóias-loucas. Estava tudo preparado, e quando a noite caía sobre nós, o fogo estava alto e o arroz e a lingüiça ferviam na panela de ferro. Bebíamos e contávamos piadas aguardando o jantar.
Dentre os cinco quatro já estavam embriagados antes das dez. Eu, o que menos bebia ainda conseguia discernir melhor. Tentei alertar que o vento aumentava, e que a lua cheia que por um momento iluminara nossas almas fora encoberta por nuvens negras e pesadas. Ao longe trovões podiam ser ouvidos, e não demorou para que uma chuva torrencial caísse sobre nós.
Neste momento ainda estava calmo. Exilados em nossas barracas de lona preta, eu era o único ainda acordado. Relaxava aos sons dos pingos estalando no plástico. Não há som mais calmante que esse. Um atrás do outro, como se regessem uma sinfonia. Fechava os olhos e fabricava imagens alegres. Então a noite começou a mudar de rumos.
Um ronco de motor se aproximava. “Quem Diabos, anda numa noite dessas por este lugar?” Indaguei mentalmente. Tentei acordar meus companheiros. – É só alguém indo pra casa. Disse um deles, e voltou a dormir. O ronco estava mais próximo. Era um ronco agudo. Forte. Andava lento. De repente, quando o ouvi próximo a ponte, o motor silenciou. Arrastei-me pela barraca, e pela fresta pude ver o vulto sobre a ponte.
Estava escuro e a chuva embaçava a minha visão. Mas jamais esqueci a silueta forte do homem sobre a moto, e o farol que mirava sobre nós e ofuscava meus olhos. Senti medo. Muito medo. Sabe quando uma presença te causa terror. Assim ocorria comigo. O motoqueiro nada fez, mas apenas sua presença me afligia. Seu repouso sobre a ponte nos mirando sua paciência e sua omissão com os fatos que sucederam sua chegada me atormentam.
Os pesadelos daquela noite me acompanham a cada noite, que relembro o fedor pútrido que invadiu minhas narinas. Era como se queimassem mil chifres de gado na beira daquele riacho. Ainda ofuscado pela lanterna da motocicleta, apenas ouvia o quebrar das águas contra as pedras. Elas serpenteavam as curvas de seu leito mais veloz que o habitual. Era uma enxurrada. Um manto de morte feito por água e peixes carnívoros que desciam rio abaixo. Vi alguns desses animais se regozijando com as carnes de meus amigos.
Quando as águas me sugaram para seu interior vi meus olhos serem cegados pelas águas escuras. Girava como as hélices de um navio num verdadeiro redemoinho. Era como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. Troncos e galhos tiravam raspão, arranhando meu corpo e distribuindo meu sangue. Sangue este que alertava o estranho cardume. Não tinha relatos de peixes carnívoros na região, mas naquela noite eu os pude ver. Eram enormes. Anormais. Seus olhos luminosos cor de fogo transformavam a solidão do mundo submerso do riacho numa grande metrópole com suas lâmpadas acesas.
Quando uma boca com dentes mais afiados que navalha penetrou minhas carnes, gritei medonhamente. A água invadiu minha boca e meus pulmões, silenciando a minha expressão de dor. Não podia mais gritar, e as mordidas aconteciam sucessivamente. Mentalmente orei um Pai Nosso, pois apenas a providência divina poderia salvar-me. Pedi perdão por meus pecados, e jurei nunca mais desrespeitar a sexta-feira santa. Minha mãe sempre dizia que neste dia “o bicho ruim” andava solto. Lembrei de suas palavras, e adormeci sem mais nenhuma consciência, e com vela da vida deixando de queimar seu pavio em minha alma.
Quando acordei já estava nesta cadeira de rodas. Sem minhas pernas. Sem um dos meus braços. Meu rosto está desfigurado, um dos olhos não existe mais. Apenas as lembranças daquela noite continuam perfeitas.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Mais um conto de natal
Marcondes chega em casa no dia 23 de dezembro. Não é uma casa como as que você conhece. É uma casa pobre, onde as paredes de madeira são arejadas naturalmente pelas rachaduras, e o telhado está às vistas pela inexistência de forro. Mas Marcondes não reclama. Esta ali de favor. A casa de três pequenos cômodos divide com a esposa e seus dois filhos...
Natanael, pouco entende da data que se aproxima. Já Benjamim, de cinco anos, toda tarde chega para abraçar-lhe, e contar do pedido depositado num pequeno pinheiro improvisado por Judith. Ele abraça o filho, diz poucas palavras, e vai ao banheiro. É lá que gosta de pensar. Refletir. É na solidão entre aquelas pequenas paredes, que o envolvem, que ele toma muitas de suas decisões.
Marcondes liga o chuveiro, e a água morna começa a escorrer lentamente sobre sua pele tostada pelo sol, de um dia inteiro. Infrutífero por sinal. As vendas não iam bem, e ele dependia de suas comissões. Uma ou outra prestação, água, luz, farmácia... Não havia fórmula mágica para os números que são acompanhados por cifras.
No caminho, ele passara por tantas vitrines. Vermelhas. Enfeitadas. Coloridas. Na tevê a mesma coisa. Propaganda. Muita propaganda. E enfim o bom e velho papai-noel se tornara alguém muito famoso, e de muitas faces, e empregado em diversas lojas. “Devem ser clonados, ou são fabricados em larga escala!” Pensava Marcondes, enquanto pressionava ao máximo o vidro de xampu quase vazio.
Como a água cada vez mais quente estava sua cabeça. Ele não queria falhar. Mas sua impotência o castigava. Ele calculava de um lado, puxava números de outro, somava aqui, subtraia ali, mas não chegava a um denominador comum. De forma alguma papai-noel conseguiria entregar ao jovem Benjamim seu Auto Posto, desejado há três natais no mínimo. “Não... Não posso adiar mais uma vez...”
Marcondes sabia que entraria como uma navalha a cara de frustração. De descrédito de seu rebento. Crianças apenas desejam. Sem maldade. Benjamim, talvez logo esquecesse, talvez até mesmo compreendesse, mas Marcondes sabia, e isto era o suficiente para atormentá-lo.
A toalha ríspida lavada sem amaciante passava pelo corpo do pai, quase em desespero por ver sua impossibilidade em atender o desejo de um filho. Vestiu um calção velho, e a camiseta lacrimejando. Estava prestes a chorar. Porém, não podia ver seu garoto esperar por uma visita que jamais chegaria no dia vinte e quatro.
O garoto assistia televisão. Ironicamente a propaganda mostrava o tão desejado brinquedo. Os olhos do menino brilhavam. É o que acontece quando desejamos algo tão profundamente. Nossos olhos brilham. Mas os olhos de Marcondes não brilhavam mais. Estavam profundos e vazios. Caminhando a passos lentos, pegou sobre a pia uma pequena faca. Empunhou firme, descascando de forma firme e raivosa o pêssego que estava noutra mão. Foi até o quarto e sentou-se ao lado do garoto.
A faca machucava a carne da fruta como se Marcondes quisesse machucar sua própria carne. Era uma decisão que não teria mais volta. Talvez Benjamim jamais o perdoasse. Jamais o entendesse. Mas o desesperado pai estava desesperado. E algo iria morrer definitivamente naquele dia.
Marcondes aproximou-se do jovem, e com o braço esquerdo o envolveu em seu colo. – Chega mais perto do pai, meu filho! O menino então olhou-o no fundo dos olhos como se previsse que algo aconteceria. Ficou em silêncio aguardando que seu pai continuasse a fazer o que estava decidido fazer. O menino viu uma lágrima escorrer, e os lábios de seu pai tremerem até que balbuciantes e chocantes palavras foram pronunciadas: - Meu filho, Papai-Noel não existe!
Com aquelas palavras, naquele dia uma crença morreu. Benjamim deixou a acreditar no natal.
Natanael, pouco entende da data que se aproxima. Já Benjamim, de cinco anos, toda tarde chega para abraçar-lhe, e contar do pedido depositado num pequeno pinheiro improvisado por Judith. Ele abraça o filho, diz poucas palavras, e vai ao banheiro. É lá que gosta de pensar. Refletir. É na solidão entre aquelas pequenas paredes, que o envolvem, que ele toma muitas de suas decisões.
Marcondes liga o chuveiro, e a água morna começa a escorrer lentamente sobre sua pele tostada pelo sol, de um dia inteiro. Infrutífero por sinal. As vendas não iam bem, e ele dependia de suas comissões. Uma ou outra prestação, água, luz, farmácia... Não havia fórmula mágica para os números que são acompanhados por cifras.
No caminho, ele passara por tantas vitrines. Vermelhas. Enfeitadas. Coloridas. Na tevê a mesma coisa. Propaganda. Muita propaganda. E enfim o bom e velho papai-noel se tornara alguém muito famoso, e de muitas faces, e empregado em diversas lojas. “Devem ser clonados, ou são fabricados em larga escala!” Pensava Marcondes, enquanto pressionava ao máximo o vidro de xampu quase vazio.
Como a água cada vez mais quente estava sua cabeça. Ele não queria falhar. Mas sua impotência o castigava. Ele calculava de um lado, puxava números de outro, somava aqui, subtraia ali, mas não chegava a um denominador comum. De forma alguma papai-noel conseguiria entregar ao jovem Benjamim seu Auto Posto, desejado há três natais no mínimo. “Não... Não posso adiar mais uma vez...”
Marcondes sabia que entraria como uma navalha a cara de frustração. De descrédito de seu rebento. Crianças apenas desejam. Sem maldade. Benjamim, talvez logo esquecesse, talvez até mesmo compreendesse, mas Marcondes sabia, e isto era o suficiente para atormentá-lo.
A toalha ríspida lavada sem amaciante passava pelo corpo do pai, quase em desespero por ver sua impossibilidade em atender o desejo de um filho. Vestiu um calção velho, e a camiseta lacrimejando. Estava prestes a chorar. Porém, não podia ver seu garoto esperar por uma visita que jamais chegaria no dia vinte e quatro.
O garoto assistia televisão. Ironicamente a propaganda mostrava o tão desejado brinquedo. Os olhos do menino brilhavam. É o que acontece quando desejamos algo tão profundamente. Nossos olhos brilham. Mas os olhos de Marcondes não brilhavam mais. Estavam profundos e vazios. Caminhando a passos lentos, pegou sobre a pia uma pequena faca. Empunhou firme, descascando de forma firme e raivosa o pêssego que estava noutra mão. Foi até o quarto e sentou-se ao lado do garoto.
A faca machucava a carne da fruta como se Marcondes quisesse machucar sua própria carne. Era uma decisão que não teria mais volta. Talvez Benjamim jamais o perdoasse. Jamais o entendesse. Mas o desesperado pai estava desesperado. E algo iria morrer definitivamente naquele dia.
Marcondes aproximou-se do jovem, e com o braço esquerdo o envolveu em seu colo. – Chega mais perto do pai, meu filho! O menino então olhou-o no fundo dos olhos como se previsse que algo aconteceria. Ficou em silêncio aguardando que seu pai continuasse a fazer o que estava decidido fazer. O menino viu uma lágrima escorrer, e os lábios de seu pai tremerem até que balbuciantes e chocantes palavras foram pronunciadas: - Meu filho, Papai-Noel não existe!
Com aquelas palavras, naquele dia uma crença morreu. Benjamim deixou a acreditar no natal.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Os 7 maiores detetives da literatura mundial
Encontrei neste blog uma interessante lista com os 7 maiores detetives da literatura mundial. Clique AKI e veja.
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A estrada como de costume estava deserta naquela madrugada. Os três amigos, cada qual mais embriagado que o outro, ziguezagueavam sobre o asfalto áspero que cortava a pequena cidade de Pantano Grande ao meio. O lugar, no coração do Rio Grande era pacato, e não tinha mais que dez mil habitantes. Os amigos, Cleiton, Eduardo e Jeferson, voltavam para casa depois da festa num clube da cidade...
Do centro até os sítios onde moravam, pouco mais de seis quilômetros, e mesmo bêbados eles voltavam a pé para casa. Cleiton abriu seu telefone celular e verificou que já passava das cinco. Eduardo parou sobre o acostamento, abriu seu zíper e pôs-se a urinar toda a cerveja que bebera na festa. Os outros dois o seguiram, e enquanto encharcavam o solo com o líquido ácido e quente que saia de seus pênis, cantarolavam aos gritos uma canção desafinada. Nem mesmos os dois olhos de luzes que despontava antes da curva inibiram o grupo, e quando o carro passou por eles, se viraram para a estrada apontando seus membros em direção do veículo. O carro passou sem percebê-los.
O trio, mais alegre que o de costume, seguiu seu caminho. Com os pés cansados, tiraram os sapatos, e caminhavam sentindo o sereno da primavera. A cantoria continuava. Apenas a canção se alterou, e logo no início de uma curva que abria as cortinas para o cemitério municipal, ao invés das baladas populares começaram a entoar a ave-maria e o pai nosso. Cleosvaldo, o vigia, escondeu-se atrás dos muros jogando-lhe pedras, mas o álcool impedia que os amigos temessem ate mesmo os mortos. Estavam na metade do caminho para casa.
A propriedade dos pais de Jeferson era um pouco antes da dos irmãos Eduardo e Cleiton. – É to quase chegando! Disse Jeferson de forma atrapalhada e gaguejante. Antes da porteira que dava acesso para o sítio, cruzaram pelo milharal. Era um atalho. As espigas estavam verdes. Tenras e doces. – Ajuda a diminuir o álcool no sangue. Dizia Eduardo ao desfolhar e devorar uma espiga inteira enquanto cruzava pela plantação.
- Não sei por que, mas detesto milharal. Disse Jeferson.
- É parece que tem sempre alguém nos espionando. Respondeu cleiton.
- Essas folhas, se roçando... Chega até mesmo dar arrepios. E você, Duda? Duda? Duda...
Eduardo não respondeu a nenhum deles. – Deixa de ser idiota moleque. Pensa que vai nos assustar. Os dois seguiram pelo milharal. Um vento que começou a soprar mais forte dava a impressão que dezenas de pessoas circulavam pela plantação. – O idiota do Duda, pensou que ia nos assustar... Não é Cleiton? Cleiton? Cleiton...
Cleiton também havia desparecido? Ou seria apenas uma brincadeira de mau gosto. Jeferson bem conhecia os dois, e preferiu continuar caminhando no mesmo passo, do que servir de piada no dia seguinte. “Droga de plantação! Parece que tem sempre alguém nos seguindo!” murmurava em vos baixa. Seus olhos estalados olhavam em todas direções, pois queria estar prevenido quanto alguma aparição abrupta de seus amigos. Não queria deixar-se levar pelo susto. Com as mãos abria caminho entre as folhagens da planta. O milharal estava quase vencido.
Mas ele não conseguia observar a tudo, e tropeçou em algo. Na verdade foi levado a tropeçar, pois antes de seu corpo se espatifar no chão, percebeu que uma espécie de laço, com três pesos nas pontas o desequilibrara. Nem bem caiu uma rede caiu sobre seu corpo, lhe causando pequenos choques elétricos. Com os olhos enfumaçados, e a consciência lhe fugindo sentiu seu corpo sendo arrastado pela terra fofa.
Jeferson, mesmo com a visão turva movimentou sua cabeça para tentar ver quem o havia capturado. Pode ver apenas um par de pés descalços. Não eram pés humanos. Eram pés enormes, esverdeados, e escamosos... Dos calcanhares duas grandes unhas encurvadas se assemelhavam com ferrões. Aquele par de pés levava seu dono - que devia ter mais de dois metros de altura, se a julgar pelo tamanho dos pés – a passos lentos e torturantes em direção de uma luz forte.
Jeferson voltou então a rezar, como fizera a pouco, quando cruzara pelo cemitério. Mas dessa vez o cântico estava afinado, e bem mais sincero. Porém talvez a brincadeira anterior tenha irritado ao poder celeste, e sua oração não foi ouvida.
Do centro até os sítios onde moravam, pouco mais de seis quilômetros, e mesmo bêbados eles voltavam a pé para casa. Cleiton abriu seu telefone celular e verificou que já passava das cinco. Eduardo parou sobre o acostamento, abriu seu zíper e pôs-se a urinar toda a cerveja que bebera na festa. Os outros dois o seguiram, e enquanto encharcavam o solo com o líquido ácido e quente que saia de seus pênis, cantarolavam aos gritos uma canção desafinada. Nem mesmos os dois olhos de luzes que despontava antes da curva inibiram o grupo, e quando o carro passou por eles, se viraram para a estrada apontando seus membros em direção do veículo. O carro passou sem percebê-los.
O trio, mais alegre que o de costume, seguiu seu caminho. Com os pés cansados, tiraram os sapatos, e caminhavam sentindo o sereno da primavera. A cantoria continuava. Apenas a canção se alterou, e logo no início de uma curva que abria as cortinas para o cemitério municipal, ao invés das baladas populares começaram a entoar a ave-maria e o pai nosso. Cleosvaldo, o vigia, escondeu-se atrás dos muros jogando-lhe pedras, mas o álcool impedia que os amigos temessem ate mesmo os mortos. Estavam na metade do caminho para casa.
A propriedade dos pais de Jeferson era um pouco antes da dos irmãos Eduardo e Cleiton. – É to quase chegando! Disse Jeferson de forma atrapalhada e gaguejante. Antes da porteira que dava acesso para o sítio, cruzaram pelo milharal. Era um atalho. As espigas estavam verdes. Tenras e doces. – Ajuda a diminuir o álcool no sangue. Dizia Eduardo ao desfolhar e devorar uma espiga inteira enquanto cruzava pela plantação.
- Não sei por que, mas detesto milharal. Disse Jeferson.
- É parece que tem sempre alguém nos espionando. Respondeu cleiton.
- Essas folhas, se roçando... Chega até mesmo dar arrepios. E você, Duda? Duda? Duda...
Eduardo não respondeu a nenhum deles. – Deixa de ser idiota moleque. Pensa que vai nos assustar. Os dois seguiram pelo milharal. Um vento que começou a soprar mais forte dava a impressão que dezenas de pessoas circulavam pela plantação. – O idiota do Duda, pensou que ia nos assustar... Não é Cleiton? Cleiton? Cleiton...
Cleiton também havia desparecido? Ou seria apenas uma brincadeira de mau gosto. Jeferson bem conhecia os dois, e preferiu continuar caminhando no mesmo passo, do que servir de piada no dia seguinte. “Droga de plantação! Parece que tem sempre alguém nos seguindo!” murmurava em vos baixa. Seus olhos estalados olhavam em todas direções, pois queria estar prevenido quanto alguma aparição abrupta de seus amigos. Não queria deixar-se levar pelo susto. Com as mãos abria caminho entre as folhagens da planta. O milharal estava quase vencido.
Mas ele não conseguia observar a tudo, e tropeçou em algo. Na verdade foi levado a tropeçar, pois antes de seu corpo se espatifar no chão, percebeu que uma espécie de laço, com três pesos nas pontas o desequilibrara. Nem bem caiu uma rede caiu sobre seu corpo, lhe causando pequenos choques elétricos. Com os olhos enfumaçados, e a consciência lhe fugindo sentiu seu corpo sendo arrastado pela terra fofa.
Jeferson, mesmo com a visão turva movimentou sua cabeça para tentar ver quem o havia capturado. Pode ver apenas um par de pés descalços. Não eram pés humanos. Eram pés enormes, esverdeados, e escamosos... Dos calcanhares duas grandes unhas encurvadas se assemelhavam com ferrões. Aquele par de pés levava seu dono - que devia ter mais de dois metros de altura, se a julgar pelo tamanho dos pés – a passos lentos e torturantes em direção de uma luz forte.
Jeferson voltou então a rezar, como fizera a pouco, quando cruzara pelo cemitério. Mas dessa vez o cântico estava afinado, e bem mais sincero. Porém talvez a brincadeira anterior tenha irritado ao poder celeste, e sua oração não foi ouvida.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
A ultima tarde de Mário
Até onde vai nossa honestidade e nossa moral? Esta pergunta martelava insistentemente o cérebro de Mario Bergmann. A casa dos trinta lhe chegava, e o marasmo de sua vida inútil lhe assustava. Era um terço de uma vida para quem desejava ultrapassar os noventa, e até ali suas escolhas haviam sido erradas, afinal, em sua testa via escrito fracasso cada vez que se refletia no espelho...
Era uma terça-feira de calor insuportável, dezembro transformava a metrópole num verdadeiro inferno. Quinze pra três da tarde, e ele caminhava apressadamente pelas ruas do centro. Era o último dia de depositar os valores do aluguel. Isto o chateava. Sua vida não existia, ele apenas contava regressivamente a chegada de sei fim. Depois disso, nada que marcasse sua existência seria legado à humanidade. Mario não queria apenas morrer, partir sem deixar qualquer rastro, mas isto não lhe era possível... Sem dinheiro, não a imortalidade, não há grande feitos, e ele teria de se contentar com a burocracia do escritório administrativo, e ao final do mês receber uma gratificação que lhe permitisse sobreviver.
Era Mario um sujeito metido a filósofo. Mesmo que ninguém o visse assim, ele elaborava teorias solitárias. Para ele a grande parte da humanidade apenas sobrevive. Passa trinta dias aguardando outros trinta, sempre iguais... Viver ao contrário, era algo mais complexo, implicava em felicidade, alegrias, e para isto, Mário era taxativo, apenas o dinheiro proporcionava. Uma vida sem pensar em contas, poder ir e vir para o lugar desejado, divertir-se... Tudo isto lhe custava caro.
Quando ele entrou no Banco faltavam cinco minutos para o fechamento da agência. Estavam todos lá. Marcílio, o guarda, o Gerente Vicenzo, e lógico uma fila de clientes. Mário suava. De seu rosto envelhecido pingos d’água escorriam até sua blusa. O guarda cumprimentou-o, como sempre, afinal era um cliente assíduo. Nunca de grandes valores, mas de pequenas quantias, sacadas e depositadas quase que diariamente. Mário foi então ao seu encontro, como se fosse cumprimentar-lhe. Mas não o fez, ao contrário, sacou uma arma de dentro da pasta e mirou na cabeça do guarda. Ele levantou as mãos, e Mário lhe retirou a arma. Depois jogou a pistola de brinquedo no chão, e anunciou o assalto com o 38 do próprio guarda em mãos.
Gritos, tentativas de correria, e o homem resoluto do que faria disparou para o alto. Foi até o gerente e lhe exigiu a chave do cofre. Era dia de pagamento de aposentados, ele sabia que havia volume em seu interior. O gerente tentou despistá-lo, mas o homem decidido mirou num dos homens atirado ao chão e acertou-lhe a cabeça. – Não estou brincando! Bradou firmemente.
O gerente começou a recolher o dinheiro com a pistola sobre sua cabeça. O saco ia se avolumando. Mário já cogitava tirar umas férias. As sirenes se aproximavam, e quando ele deu o assalto por finalizado, e estava satisfeito com a quantia arrecadada se retirou da agência, com gerente engravatado por seus braços firmes, e sempre na mira do revólver.
Tudo havia sido planejado por Mário. O assalto, a saída com o refém, á fuga no primeiro carro que lhe surgisse, até mesmo uma possível perseguição, estava cogitada. Porém Mário não era ladrão. Nunca foi. Até mesmo para ser bandido se carece de experiência, de vocação. Um homem pacato como ele jamais calcularia todas as variantes de uma ação criminosa.
O tempo para ele parecia muito rápido. Mas não tão rápido que não permitisse a posição dos atiradores de elite. Foi de um deles que partiu a bala certeira, que lhe atravessou a cabeça. Os seus dedos pesados pela chegada da morte chegaram a disparar o gatilho, mas atingiram o gerente de raspão. Mário caiu morto, manchando a calçada de vermelha, pelo seu sangue em poças que deslizava até o primeiro bueiro que encontrou. Não sei qual era o desejo de Mário naquela tarde confusa e trágica. Talvez fosse apenas o dinheiro, talvez fosse encontrar a morte, e a falta de coragem nunca lhe permitiu fazer isto com as próprias mãos. Apenas sei que ele não chegará aos desejados noventa anos. Abreviou em dois terços, sua vontade de viver, e o máximo que conseguiu de reconhecimento foi seu nome em pequenas reportagens na página policial, que davam conta da tentativa de assalto frustrada. Até mesmo ao ganhar seu minuto de fama, Mário, apresentou-se como um fracassado.
Era uma terça-feira de calor insuportável, dezembro transformava a metrópole num verdadeiro inferno. Quinze pra três da tarde, e ele caminhava apressadamente pelas ruas do centro. Era o último dia de depositar os valores do aluguel. Isto o chateava. Sua vida não existia, ele apenas contava regressivamente a chegada de sei fim. Depois disso, nada que marcasse sua existência seria legado à humanidade. Mario não queria apenas morrer, partir sem deixar qualquer rastro, mas isto não lhe era possível... Sem dinheiro, não a imortalidade, não há grande feitos, e ele teria de se contentar com a burocracia do escritório administrativo, e ao final do mês receber uma gratificação que lhe permitisse sobreviver.
Era Mario um sujeito metido a filósofo. Mesmo que ninguém o visse assim, ele elaborava teorias solitárias. Para ele a grande parte da humanidade apenas sobrevive. Passa trinta dias aguardando outros trinta, sempre iguais... Viver ao contrário, era algo mais complexo, implicava em felicidade, alegrias, e para isto, Mário era taxativo, apenas o dinheiro proporcionava. Uma vida sem pensar em contas, poder ir e vir para o lugar desejado, divertir-se... Tudo isto lhe custava caro.
Quando ele entrou no Banco faltavam cinco minutos para o fechamento da agência. Estavam todos lá. Marcílio, o guarda, o Gerente Vicenzo, e lógico uma fila de clientes. Mário suava. De seu rosto envelhecido pingos d’água escorriam até sua blusa. O guarda cumprimentou-o, como sempre, afinal era um cliente assíduo. Nunca de grandes valores, mas de pequenas quantias, sacadas e depositadas quase que diariamente. Mário foi então ao seu encontro, como se fosse cumprimentar-lhe. Mas não o fez, ao contrário, sacou uma arma de dentro da pasta e mirou na cabeça do guarda. Ele levantou as mãos, e Mário lhe retirou a arma. Depois jogou a pistola de brinquedo no chão, e anunciou o assalto com o 38 do próprio guarda em mãos.
Gritos, tentativas de correria, e o homem resoluto do que faria disparou para o alto. Foi até o gerente e lhe exigiu a chave do cofre. Era dia de pagamento de aposentados, ele sabia que havia volume em seu interior. O gerente tentou despistá-lo, mas o homem decidido mirou num dos homens atirado ao chão e acertou-lhe a cabeça. – Não estou brincando! Bradou firmemente.
O gerente começou a recolher o dinheiro com a pistola sobre sua cabeça. O saco ia se avolumando. Mário já cogitava tirar umas férias. As sirenes se aproximavam, e quando ele deu o assalto por finalizado, e estava satisfeito com a quantia arrecadada se retirou da agência, com gerente engravatado por seus braços firmes, e sempre na mira do revólver.
Tudo havia sido planejado por Mário. O assalto, a saída com o refém, á fuga no primeiro carro que lhe surgisse, até mesmo uma possível perseguição, estava cogitada. Porém Mário não era ladrão. Nunca foi. Até mesmo para ser bandido se carece de experiência, de vocação. Um homem pacato como ele jamais calcularia todas as variantes de uma ação criminosa.
O tempo para ele parecia muito rápido. Mas não tão rápido que não permitisse a posição dos atiradores de elite. Foi de um deles que partiu a bala certeira, que lhe atravessou a cabeça. Os seus dedos pesados pela chegada da morte chegaram a disparar o gatilho, mas atingiram o gerente de raspão. Mário caiu morto, manchando a calçada de vermelha, pelo seu sangue em poças que deslizava até o primeiro bueiro que encontrou. Não sei qual era o desejo de Mário naquela tarde confusa e trágica. Talvez fosse apenas o dinheiro, talvez fosse encontrar a morte, e a falta de coragem nunca lhe permitiu fazer isto com as próprias mãos. Apenas sei que ele não chegará aos desejados noventa anos. Abreviou em dois terços, sua vontade de viver, e o máximo que conseguiu de reconhecimento foi seu nome em pequenas reportagens na página policial, que davam conta da tentativa de assalto frustrada. Até mesmo ao ganhar seu minuto de fama, Mário, apresentou-se como um fracassado.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
NATÉRCIO, O LOBISOMEM CONTRARIADO
Havia quatro homens dentro do bar. Ariovaldo, Natércio, Oliveira e o dono, Joelmir. Passava da meia noite de uma sexta-feira treze, e a chuva torrencial produzia assustadora sonoridade ao se chocar com o telhado da construção rústica e mal acaba. Sobre a mesa de lata estampando propaganda de cerveja uma dúzia de garrafas vazias repousava. Estavam todos bêbados...
Jogavam sinuca, falavam de mulheres, e bebiam... - A última, Joelmir. Disse Natércio, homem que todos tinham por lobisomem. O assunto lhe era desagradável, e Oliveira, o mais pândego entre eles resolveu "cutucar a onça com vara curta". Nesse caso mais propriamente o lobo.
Na verdade nunca se confirmara a hipótese. Ninguém vira a metamorfose, nenhuma testemunha, apenas algumas cabras, e ovelhas dilaceradas pelso sítios vizinhos. Fatos que geraram os boatos, que recaíram sobre Natércio, um homem passado dos cinquenta, meio mulambento, com a barba sempre por fazer, pêlos espalhados por todo o corpo, inclusive nas orelhas. A associação com a fera era inevitável.
- Pois é Ariovaldo, ainda bem que o tempo tá ruim, pois se a lua cheia tivesse clara, eu que não ficaria perto do Natércio. Disse Oliveira. Ariovaldo riu, e Joelmir entrou na conversa. - Qual é o sabor da carne da cabrito, crua, heim Natércio. O homem cerrou o olhar e frangiu as sombrancelhas. - É melhor vocês pararem com este assunto. Disse.
Porém a cachaça e a cerveja normalmente embalam o humor, e els seguiram com a conversa. - Não tem problema, rapaz, pode confessar pros amigos. Mas antes de tu matar os bichinhos? Insinuava um. - Pobre das crianças, basta o companheiro chegar perto que não resta um piá nas ruas. Lembrava outro.
Distraídos na brincadeira, os três não perceberam que Natércio estava vermelho. De raiva certamente. A cerveja já lhe orientava, a o caçoar de seus amigos lhe parecia provocação. Humilhação... - Por favor, me respeitem. Bradou numa última tentativa. Em vão, continuaram com as palavras ostensivas, contra Natércio, o lobisomem.
Então ele empunhou um dos tacos de sinuca de forma firme e obstinada. Suas mãos calejadas não o soltava por nada, e partiu contra cada um de seus amigos. No dia seguinte, quando Adair Correa foi até o bar comprar pão adormecido, encontrou um cenário macabro. Três corpos mutilados tinham seus membros espalhados pelo salão do bar. - Meu Deus! O lobisomem atacou ontem à noite! Disse espantado.
Jogavam sinuca, falavam de mulheres, e bebiam... - A última, Joelmir. Disse Natércio, homem que todos tinham por lobisomem. O assunto lhe era desagradável, e Oliveira, o mais pândego entre eles resolveu "cutucar a onça com vara curta". Nesse caso mais propriamente o lobo.
Na verdade nunca se confirmara a hipótese. Ninguém vira a metamorfose, nenhuma testemunha, apenas algumas cabras, e ovelhas dilaceradas pelso sítios vizinhos. Fatos que geraram os boatos, que recaíram sobre Natércio, um homem passado dos cinquenta, meio mulambento, com a barba sempre por fazer, pêlos espalhados por todo o corpo, inclusive nas orelhas. A associação com a fera era inevitável.
- Pois é Ariovaldo, ainda bem que o tempo tá ruim, pois se a lua cheia tivesse clara, eu que não ficaria perto do Natércio. Disse Oliveira. Ariovaldo riu, e Joelmir entrou na conversa. - Qual é o sabor da carne da cabrito, crua, heim Natércio. O homem cerrou o olhar e frangiu as sombrancelhas. - É melhor vocês pararem com este assunto. Disse.
Porém a cachaça e a cerveja normalmente embalam o humor, e els seguiram com a conversa. - Não tem problema, rapaz, pode confessar pros amigos. Mas antes de tu matar os bichinhos? Insinuava um. - Pobre das crianças, basta o companheiro chegar perto que não resta um piá nas ruas. Lembrava outro.
Distraídos na brincadeira, os três não perceberam que Natércio estava vermelho. De raiva certamente. A cerveja já lhe orientava, a o caçoar de seus amigos lhe parecia provocação. Humilhação... - Por favor, me respeitem. Bradou numa última tentativa. Em vão, continuaram com as palavras ostensivas, contra Natércio, o lobisomem.
Então ele empunhou um dos tacos de sinuca de forma firme e obstinada. Suas mãos calejadas não o soltava por nada, e partiu contra cada um de seus amigos. No dia seguinte, quando Adair Correa foi até o bar comprar pão adormecido, encontrou um cenário macabro. Três corpos mutilados tinham seus membros espalhados pelo salão do bar. - Meu Deus! O lobisomem atacou ontem à noite! Disse espantado.
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