quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Deputado

Num futuro não muito distante, câmeras fotográficas e filmadoras foram abolidas. Caíram em desuso, tornando-se obsoletas, desde o surgimento de um HD capaz de receber qualquer informação via Bluetooth processado pelo cérebro, inclusive a imagens. Assim, bastava visualizar algo, que a lembrança vivenciada era instantaneamente enviada para um servidor, via rede. Cada cidadão passou a ter seu sistema de gravação de vivência pessoal. Menos os puritanos, por ideologia, e os subumanos, por condições miseráveis. Já na alta sociedade composta por geeks e nerd's o artefato era revolucionário, e sem demora se espalhou por toda a sociedade. O deputado Carlos Sarney foi um dos primeiros políticos a aderir. Queria provar que para a condição na vida pública era fundamental, até mesmo obrigatório compartilhar sua vida, principalmente para um provável candidato a presidência do Brasil. Na verdade, seu discurso não passava de um engodo a pseudo-analistas que acreditavam naquele discurso de transparência, pois conhecia muito bem o deputado o novo sistema, e gravar não necessariamente significava arquivar, e logicamente grande parte das conversas e visualizações eram deletadas, antes de serem carregadas em seu perfil no Orkut. Desconfiado, ele também carregava sempre um bloqueador, que causava interferência, muito útil para reuniões secretas em seu gabinete. No entanto, o jovem político viu-se encurralado, após uma situação inesperada. Homem casado e de conduta ilibada, por descuido esqueceu-se de desligar o modo REC. enquanto se esbaldava com uma linda prostituta da zona sul, num destes motéis cinco estrelas. Sua situação agravou-se, quando o sadomasoquismo extrapolou seus limites, e suas mãos fortes golpearam desproporcionalmente a mulher, que caiu morta sobre a cama de lençóis finos. Ele tinha menos que vinte minutos para chegar a casa, tempo suficiente para deletar as imagens do servidor, antes que elas fossem carregadas automaticamente para suas redes sociais. Daí pra frente, os telejornais se fartariam em matérias. Ele conhecia bem os abutres que comandavam verdadeiramente a nação. Brasília cada dia mais conturbada e de trânsito nervoso, se igualava a São Paulo no início do século, e os números de seu relógio decresciam vertiginosamente. Encurralado, e sem mais tempo, enquanto os vídeos daquele fatídico dia carregavam as páginas de seu Orkut, uma velha peça de coleção adquirida pela manhã, soou um estampido há muito esquecido. Na era de armas não letais, e laser's, a Magnum sete meia cinco fez-lhe um favor, estourando seus miolos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Consultório

Há neste mundo algo mais aterrorizador que um consultório de dentista? Seu odor característico, o som dos equipamentos em pleno funcionamento faziam minha pressão arterial descer, enquanto aguardava na sala de espera. O atendimento por ordem de chegada me deixava no meio da fila, tempo suficiente para ouvir gritos pavorosos, e a estridente broca perfurando maxilares mal cuidados. O doutor Ricardo Boaventura era novato, na cidade, e alugara um velho casario, onde montou seu consultório, que era secretariado por uma velha de cara rabugenta, e que jamais olhava-nos nos olhos. Cabisbaixa, anotava nome dos pacientes, e os anunciava ao som de uma campainha apertada dentro da sala do dentista. Estranhamente, os pacientes não retornavam pela porta por onde entraram. Um a um eram chamados, e ao toque da campainha outro entrava sem que o anterior "desse as caras" no saguão. Estranhei o fato, mas supus alguma porta de saída, afinal, era uma casa enorme. A fila foi diminuindo, e torturantemente minha vez ia se aproximando. Já podia sentir a broca raspando minhas cáries, a saliva ensanguentada eclodindo de minha boca... Detestava qualquer dentista, e fosse qual fosse, o odiaria mais que a um inimigo. Mas inevitavelmente me era necessário, e quando a voz empolada da secretária me anunciou, um frio abateu-se sobre meu corpo, e uma vontade de dar meia volta instigava meu pensamento. Só não o fiz por orgulho, pois temia a chacota dos que ainda aguardavam. Cidade pequena, todos comentariam meu medo. Desse modo, muito mais por vergonha em demonstrar fraqueza, do que por coragem de enfrentar a cadeira que me aguardava, entrei no local. Primeiramente procurei pela porta de saída, o que não existia. A única porta era a de metal, que dava acesso a uma espécie de câmara frigorífica. Se já havia medo em meu coração, imagine o leitor após esta constatação. "Por onde saíram os outros?" era a única pergunta que me vinha ao pensamento. Absorto nesta questão esclarecedora, não percebi meus punhos e pés atados firmemente à cadeira. Quando o doutor virou-se, minha ultima visão foram os olhos alaranjados do dentista, que lentamente vinha em minha direção com sua cruel broca, que só saciou seu desejo por sangue após atingir meu cérebro, extinguindo meu último suspiro de vida. Próximo. Gritou a secretária. A fila ainda estava grande, mas o doutor resolveria a dor de dente de muita gente, naquela tarde.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

A escolha do Cavaleiro

O corte profundo de uma espada laciva e cruel no tórax do General Hardor, aliada ao tombo de seu imponente cavalo Perseu, e a iminência de sofrer o golpe fatal, lhe fez pensar toda a conduta de uma vida em míseros cinco segundos.

Homem de confiança do Rei Arturios, regente das terras do norte, o general comandava o segundo regimento de cavaleiros, responsável pela segurança do Sétimo Estado, e pautou sua vida pelo código de honra dos cavaleiros, onde basicamente se determinava que na batalha a morte pelo mais forte era digna, e eceitáveil.

"Provavelmente o fio agudo do aço nunca cortara o cavaleiro de genial idéia." Pensou Hardor, aboletado no chão elameado da floresta de pinheiros.

Suas mãos catavam todo o barro e terra, enquanto sua mente e seu coração travavam épica batalha,entre aceitar o ultimo golpe, ou contrariar tal mandamento, e surpreender seu inimigo com um ato inesperado.

Sua mente relampejava imagens de homens o qual matou, depois de duros enfrentamentos, mas que expostos a um adversário mais forte se entregavam a morte com orgulho. Deveria seguir o mesmo caminho, pois assim regiam as regras do cavaleiros. A espada viajava em sua direção...

Por outro lado notícias sombrias se espalhavam pela terra uníca. O continente que antes um só, dividido em dois se agitava em convulsões, e pequenas batalhas promovidas pelas terras do sul. Novas armas eram criadas, mercenários como aquele que estava prestes a matá-lo eclodiam pelas aldeias, e tempos nebulosos se formavam, e o nobre cavaleiro, obrigado a tomar uma decisão, que no momento não o glorificaria.

Com barro, gravetos, e veneno de arbinco que levava numa bolsa de couro, disparou contra o seu algoz, desaparecendo em fuga em meio a fumaça mortal que cobria o mercenário, levando-o a morte. Apenas a floresta testemunhava as lágrimas copiosas do homem que envergonhava-se de sí mesmo, mas que ainda teria uma vida pela frente para apagar degradante passagem daquela manhã na floresta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A torre da morte.

Agnelos Tirty estava prestes a testar seu mais novo armamento. Algo tão poderoso, que o Rei Adamastor dar-lhe-ia muitas moedas de diamante. Afinal as terras do sul eram afortunadas, e o seu invento lhe forneceria uma defesa quase que inviolável, e um ataque feroz e mortal.

Juntou mil homens naquele domingo de primavera, onde o perfume dos jasmins logo seria sobreposto pelo odor fúnebre dos homens do norte. Tempos difíceis eram aqueles, desde a morte de Eugênio Sexto, rei de toda a terra que se conhecia, de uma extremo ao outro, onde o horizonte se difundia com as águas salgadas que cercavam o único continente.

Dez longínquos anos, Agnelos levou para construir tal arma. Para sua inauguração, até mesmo o Rei seguira por semanas de viagem até o estado ao extremo leste, para averiguar os motivos de tamanha alegria em seu súdito.

Ao chegar o homem de rosto austero, delineado por traços másculos não podia crer ao que seus olhos observavam. Uma fortaleza fora erguida. Pedras, barro, e cerâmica elevavam tamanha espiga aos céus de seu reino. Não menos que duzentos metros de altura, e mais uns cem de diâmetro faziam do imponente monumento, algo que o grande líder não podia compreender.

Mas Agnelos sabia não ser de bom tom contrariar seu Rei, e justamente por este motivo tinha convicção em sua criação. Vestido em traje nunca visto, ornado por um metal desconhecido, e duas pulseiras magnéticas, o velho alquimista usou de seus conhecimentos naturais e sobrenaturais para construir a torre da morte.

Trovões e nuvens negras cobriam a torre habitada pelos mil guerreiros devidamente armados. O Rei atônito não podia crer em sua visão. Tamanho monumento fazia tremer a terra, e rachar o solo, para tão logo planar, como uma pluma flutua ao sabor do vento.

Sob o comando de Agnelos, que sobre um mapa entalhado na placa metálica, direcionava o caminho a ser realizado pela torre. Milhares de milhas e duas semanas depois, a torre voava sobre uma das fortalezas do Reinado do Norte, onde soldados exalavam medo, diante de monstruosa e misteriosa arma.

Adamastor, o Rei que governava o Sul, assistia a tudo pela visão de um aprendiz de bruxo que emitia as imagens colhidas para uma esfera. “Ataquem”. Sob a ordem imediata do Rei, pela boca do aprendiz, o mando do Rei foi ouvido, e logo posto em prática.

De dentro das muralhas da torre, seus soldados, protegidos pela espessa barreira faziam zunir seus arcos e suas bestas. Longe do alcance de seus inimigos nenhuma baixa foi sentida, e ao ponto que nenhum homem do norte em seu quartel general respirava o Rei Adamastor deleitava-se com a vitória, e pagava em muitas moedas de diamantes Agnelos.

- Se Vossa majestade desejar; posso construir mais uma destas. Dizia o mestre das armas rindo bestialmente. Fascinando pelo sangue, e pelo som das moedas que tilintavam em sua bolsa de couro de mamute.

sábado, 11 de julho de 2009

Reminiscências.

Estar morto era entre os meu problemas o menor. Antes não existisse nada além desta vida, mas infelizmente descobri tarde demais. Quanto as circunstâncias da minha morte, não lhe interessam, mas o que aconteceu depois, isto sim, deve-se relatar.

Não sei por quanto tempo fiquei envolto pelas trevas. Talvez apenas o tempo de passagem que levou-me aquele caminho assustador. Talvez por meus atos em vida, não via a tal luz, e o tempo do outro lado revelou-se carregado e tenso. Seria o inferno?

Um anjo, de penugem negras disse-me que não. Mas o parecia. Fosse pelo calor, ou fosse pelos habitantes infectos e de aparência horrível que moravam do outro lado. Tudo remetia-me ao diabo, mas ele não apareceu para cumprimentar-me.

Já a minha própria vida, regressou após a morte, e cada maldito erro ressurgiu das cinzas para vingar-se dum homem, que em vida escolheu vias tortuosas.

Desde os monstros de minha infância, quando torturava gafanhotos e pequenos pássaros, aos mais temidos inimigos, cuja ordem de morte partiram de minha boca, naquele mundo ressucitavam para torturar-me. Lhes garanto que gafanhotos gigantes, e carrascos sabem muito bem como ser incovenientes num mundo, onde apenas uma pessoa sentia dor: eu.

De todas as formas meu corpo,ou minha alma, sei lá, foi fatiada, feita em pedaços, esmigalhada... De forma que jamais alguém em vida poderá saber que tal dor descomunal possa ser possível.

Enquanto pagava por cada crime naquele traçado tortuoso e longo, apenas uma atitude martelava meus pensamentos, para quem sabe relembrá-los noutra encarnação: Jamais cometeria suicídio novamente.